segunda-feira, 24 de junho de 2013

É hora da Educação

No momento em que a voz das ruas se manifesta de forma veemente sobre mais educação, penso ser muito oportuno repercutir o texto “É hora da educação”, do Marcelo Gleiser, publicado neste último domingo, 23/06/2013, na Folha de São Paulo. Esse texto expressa com propriedade, e de forma mais inteligível do sou capaz, o meu pensar e sentir sobre a questão da educação.

Marcelo Gleiser:

 “O Brasil acordou!" é o que temos ouvido, mesmo daqui dos EUA, sobre as manifestações no país. A mídia, como sempre, enfatiza a violência acima do que as pessoas nas ruas estão pedindo.

Na quinta, a primeira página do "New York Times" mostrou um guarda atingindo o rosto de uma senhora com um spray lacrimogêneo; pouco fala da insistência da maioria dos manifestantes em manter a ordem, dos esforços em abrir uma relação com a polícia que, como tantos já disseram, é povo e precisa de melhorias tanto quanto o resto.

Existe um contrato social e financeiro entre a população e o governo. A população, por meio dos impostos, paga o governo para exercer certas funções que deveriam garantir sua qualidade de vida: saúde, educação, segurança, transportes. Se a população não paga, o governo castiga com multas e prisão.

O que ocorre quando o governo não faz a sua parte e deixa de garantir a qualidade do tratamento médico, da educação pública, da segurança nas ruas e das fronteiras, dos transportes?

É óbvio que existe uma assimetria no poder: como o governo detém controle da polícia e das forças armadas, fica fácil coibir qualquer desavença. O que as pessoas talvez estejam começando a perceber é que também têm poder. O contrato deve ser mantido dos dois lados; sem dinheiro, o governo quebra.

Mas vamos ser positivos e imaginar que as manifestações tenham o efeito de redefinir as metas do governo para cumprir o seu lado do contrato. O que deve ser feito?

O desafio do Brasil é ser um país de dimensões continentais, com mais de 200 milhões de habitantes. Bem diferente da Suécia ou da Holanda. Temos uma economia baseada na agropecuária e mineração. Nada de errado nisso, mas é insuficiente no mundo de hoje, onde tecnologias digitais estão redefinindo como vivemos. Precisamos de energia sustentável, de infraestrutura de comunicação, de técnicos, engenheiros e cientistas que possam competir em pé de igualdade com os dos países que vemos como modelos.
Um exemplo simples: quais carros guiamos no Brasil? Alemães, americanos, japoneses e coreanos. O que isso nos diz? Que esses países têm um sistema de educação capaz de suprir a enorme demanda que uma tecnologia competitiva requer. Se o Brasil tem a intenção de competir nesse nível, tem de reformular o ensino público.

Imagine que a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo em 1950, não muito diferente do Haiti. O que aconteceu? Fizeram da educação a área prioritária. Treinaram engenheiros, cientistas e médicos para levantar o país da miséria.

Não é falta de dinheiro. Em 2010, 4,3% do PIB foi investido em educação básica. O que falta? Treinamento de professores que então recebam salários dignos. Que jovem vai querer ser professor para ganhar R$ 1.200 por mês? Não basta apenas pôr as crianças nas escolas; o que fazem lá é essencial. Para isso, precisamos de professores bem treinados e de escolas com laboratórios, bibliotecas e computadores.

Sem uma profunda transformação na educação, o Brasil será passado para trás pelos países que já perceberam que sem um investimento sério na educação estão optando pela mediocridade.

(*) Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de “Criação Imperfeita”. Escreve aos domingos na coluna “Ciência”, da versão impressa de Folha de São Paulo.



terça-feira, 11 de junho de 2013

Autoridade

Jiddu Krishnamurti (*)

AS SOMBRAS DANÇAVAM no gramado verde; e embora o sol estivesse quente o céu estava muito azul e claro. Do outro lado da cerca um vaca olhava para o gramado verde e para as pessoas. A reunião das pessoas lhe parecia estranha, mas a grama verde era familiar, embora as chuvas já tivessem passado há muito e o solo estivesse marrom-queimado. Um lagarto pegava moscas e outros insetos no tronco de um carvalho. As montanhas distantes estavam enevoadas e convidativas.
            Ela disse, sob as árvores, após a palestra, que viera para ouvir caso o mestre dos mestres falasse. Ela fora muito séria mas agora essa seriedade virara obstinação. Esta era disfarçada por sorrisos e por uma tolerância razoável, que havia sido muito cuidadosamente pensada e cultivada; era uma coisa da mente e, assim, podia inflamar-se em intolerância violenta e irritada. Ela era grande e insinuante; mas havia uma censura escondida, nutrida por suas convicções e crenças. Era reprimida e dura, mas havia se dedicado à irmandade e à sua boa causa. Acrescentou, após uma pausa, que saberia quando o mestre falasse, pois ela e seu grupo tinham um modo misterioso de sabê-lo, que não era facultado a outros. O prazer do conhecimento exclusivo era bastante óbvio na maneira como disse isso, pelo gesto e pela inclinação da cabeça.
            O conhecimento exclusivo, privado, oferece um prazer profundamente gratificante. Saber algo que os outros não sabem é uma fonte constante de satisfação; isso proporciona a alguém o sentimento de estar em contato com coisas mais profundas, que dão prestígio e autoridade. Se você está em contato direto, tem algo que os outros não têm, e assim você é importante, não só para si mesmo mas para os outros. Eles o admiram e respeitam, com um pouco de receio, pois querem compartilhar daquilo que você tem; mas você dá, sempre sabendo mais. Você é o líder, a autoridade; e essa posição vem facilmente, pois as pessoas querem ser controladas, conduzidas. Quanto mais temos consciência que estamos perdidos e confusos, mais ansiosos ficamos para sermos guiados e orientados; portanto, a autoridade é estabelecida em nome do Estado, em nome da religião, em nome de um mestre ou de um líder partidário.
            O culto a autoridade, seja em grandes ou pequenas coisas, é mau, pior ainda em assuntos religiosos. Não existe intermediário entre você e a realidade; e se houver um, ele é um deturpador, um enredador, não importa quem ele seja, se o mais elevado salvador ou seu mais recente guru ou mestre. Aquele que sabe, não sabe; ele só pode saber seus próprios preconceitos, suas crenças projetadas e demandas sensoriais. Ele não pode conhecer a verdade, o incomensurável. Posição e autoridade podem ser estabelecidas, habilmente cultivadas, não a humildade. A virtude proporciona liberdade; mas a humildade cultivada não é virtude, mas simples sensação e, portanto, prejudicial e destrutiva; ela é uma prisão, de onde se precisa escapar repetidamente.
            É importante descobrir não quem é o Mestre, o santo, o líder, mas por que você o segue. Você só segue para se tornar algo, para ganhar, para ter clareza. A clareza não pode ser dada por outro. A confusão está em nós; nós a criamos e temos de removê-la. Podemos alcançar uma posição gratificante, uma segurança interna, um lugar na hierarquia da fé organizada; mas todas são atividades autolimitantes que levam a conflitos e sofrimentos. Você pode sentir-se momentaneamente feliz em sua realização, persuadir-se de que sua posição é inevitável, de que é seu destino; mas enquanto desejar tornar-se algo, qualquer que seja o nível, é certo que haverá sofrimento e confusão. Ser como nada não é negação. A ação positiva ou negativa da vontade, que é o desejo aguçado e intensificado, sempre leva à luta e ao conflito; não é o meio para o entendimento. O estabelecimento da autoridade e da obediência a ela é a negação do entendimento. Quando há entendimento, há liberdade, que não pode ser comprada ou concedida por outra pessoa. O que pode ser comprado pode ser perdido, e o que é dado por ser retirado; assim, a autoridade e seu medo são criados. O medo não será afastado por conciliações e velas; ele termina com o Cesar do desejo de se tornar.



(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 1/ Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Palavras

Jiddu Krishnamurti (*)

ELE HAVIA LIDO MUITÍSSIMO; e embora fosse pobre, considerava-se rico em conhecimento, o que lhe dava alguma felicidade. Passava muitas horas com seus livros e grande parte do tempo sozinho. Sua mulher havia morrido e seus dois filhos estavam com alguns parentes; e ele estava bem contente de estar afastado da confusão de todos os relacionamentos, acrescentou. Era estranhamente auto-suficiente, independente e tranquilamente decidido. Percorrerá um longo caminho, disse, para entrar na questão da meditação e especialmente para considerar o uso de certos cânticos e frases, cuja repetição constante era extremamente útil para a pacificação da mente. Além disso, existia certa mágica nas próprias palavras: as palavras devem ser pronunciadas corretamente e cantadas da forma correta. Essas palavras foram transmitidas às gerações seguintes desde os tempos antigos; e a própria beleza das palavras, com sua cadência rítmica, produzia uma atmosfera útil à concentração. E sem demora começou a cantar. Ele tinha uma voz agradável e havia uma melodia nascida do amor das palavras e do seu significado; ele cantou com a facilidade que vem da longa prática e da devoção. No momento em que começou a cantar, desligou-se de tudo.
Do outro lado do campo veio o som de uma flauta; era tocada de modo hesitante, mas a sonoridade era clara e pura. O músico estava sentado à farta sombra de uma frondosa árvore, e além dele, ao longe, estavam as montanhas. As montanhas silenciosas, o cântico e o som da flauta pareciam encontrar-se e sumir, para começar novamente. Os papagaios barulhentos passavam rapidamente; e mais uma vez as notas da flauta e o cântico grave e poderoso. Era de manhã cedo e o sol surgia por cima das árvores. As pessoas iam de seus povoados para a cidade, conversando e rindo. A flauta e o  cântico eram insistentes, e algumas pessoas pararam para ouvir; sentaram-se na estradinha e foram capturadas pela beleza do cântico e pela glória da manhã, que não foi absolutamente perturbada pelo apito de um trem distante; pelo contrário, todos os sons pareciam mesclar-se  e encher a terra. Mesmo o alto crocitar de um corvo não destoou.
Como somos estranhamente capturados pelo som das palavras e como as próprias palavras se tornaram importantes para nós: nação, Deus, sacerdote, democracia, revolução. Vivemos de palavras e nos deliciamos com as sensações que elas produzem; e são essas sensações que se tornaram tão importantes. As palavras são prazerosas porque seus sons despertam novamente sensações esquecidas; e sua satisfação é maior quando as palavras são substituídas pelo real, pelo que é. Tentamos preencher nosso vazio interior com palavras  com sons, com barulhos, com atividades; a música e o cântico são uma fuga feliz de nós mesmos, de nossa insignificância e de nosso tédio. As palavras enchem nossas bibliotecas; e como falamos incessantemente! Dificilmente ousamos estar sem um livro, desocupados, sozinhos. Quando estamos sós, a mente está inquieta, vagando por toda parte, preocupando-se, recordando, lutando; assim, não existe nunca a disposição de estar só, a mente está tranqüila.
Obviamente, a mente pode ser aquietada pela repetição de uma palavra, de um cântico, de uma prece. A mente pode ser narcotizada, anestesiada; pode ser anestesiada de modo agradável ou violento, e durante esse sono podem haver sonhos. Mas a mente que é silenciada por disciplina, por ritual, por repetição, jamais pode ser alerta, sensível e livre. Esse açoite da mente, sutil ou grosseiro, não é meditação. É agradável cantar e ouvir alguém que possa fazê-lo bem; mas a sensação vive apenas de mais sensações, e a sensação leva à ilusão. A maioria de nós gosta de viver de ilusões, há prazer em encontrar ilusões mais profundas e mais amplas; mas é o medo de perder nossas ilusões que nos faz negar ou encobrir o real, o verdadeiro. Não é que sejamos incapazes de entender o real; o que nos faz sentir medo é que rejeitamos o real e nos prendemos à ilusão. Ficar cada vez mais profundamente preso na ilusão não é meditação, nem é enfeitar a cela que nos prende. A percepção, desprovida de escolha, dos mecanismos da mente, que é a criadora da ilusão, e o início da meditação.
É estranha a facilidade com que encontramos substitutos para a coisa real, e como ficamos contentes com eles. O símbolo – a palavra, a imagem – torna-se totalmente importante, e em torno dele construímos a estrutura do auto-engano, usando o conhecimento para fortalecê-lo; e assim a experiência torna-se um obstáculo ao entendimento do real. Nomeamos, não apenas para comunicar, mas para reforçar a experiência; esse reforço da experiência é a consciência de si mesmo e, uma vez pego nesse processo, é extremamente difícil abandoná-lo ou seja, ir além da consciência de si mesmo. É essencial morrer para a experiência de ontem e para as sensações de hoje, do contrário haverá repetição, e a repetição de um ato, de um ritual, de uma palavra, é inútil. Na repetição não pode haver renovação. A morte da experiência é criação.


(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 1/Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007




sábado, 27 de abril de 2013

"O que você esta fazendo com a sua vida?"


(Introdução do livro de Jiddu Krishnamurti que dá título a esta postagem – Ed. Nova Era)

A maneira como nos relacionamos uns com os outros, com nosso cérebro, com bens, dinheiro, trabalho e sexo – esses relacionamentos próximos – cria a sociedade. Nosso relacionamento conosco mesmos e com os outros, multiplicado por seis bilhões, cria o mundo. Os preconceitos, a solidão, a ganância, a fome – física ou emocional –, a raiva e a tristeza de cada um de nós reunidos formam o mundo. Nós somos o mundo.
O mundo não é diferente de nós. O mundo é cada um de nós. Então, é simples: se mudarmos cada um de nós, mudaremos o mundo. Se apenas um de nós mudar, isso já causa um movimento. A bondade é contagiosa.
Na escola, aprendemos a ouvir nossos pais e mestres. Isso faz sentido, tecnologicamente. Mas milhares de gerações ainda não aprenderam psicologicamente a parar de sofrer e de causar sofrimento aos outros. A evolução psicológica não acompanhou a evolução biologia nem a científica. Na escola, podemos aprender a formar um meio de vida, mas temos de aprender sozinhos a arte de viver.
A vida fere a todos, com solidão, confusão, sentimentos de fracasso, desespero. Fere com pobreza, doença emocional, violência na rua e em casa. Aprendemos muito, mas muito raramente alguém nos ensina a lidar com os sofrimentos da vida. Ninguém nos ensina que o que fere não é a vida, mas nossas reações ao que nos acontece. É nosso medo, enraizado em autoproteção, que causa a dor. Proteger o corpo é natural. Mas será natural proteger aquilo que chamamos de “ego”? O que é esse ego que é a raiz das inquietações, da dor psicológica que sentimos quando tentamos protegê-lo?
Se alguém foge da dor e da confusão mentais recorrendo a drogas, entretenimento, sexo, negócios, o problema doloroso continua lá, composto de exaustão e vício. Devemos prestar atenção às maneiras do ego, compreendendo que medo, desejo e raiva são naturais, mas que não precisamos agir por meios deles, nem ter tudo o que desejamos. Essa compreensão dissolve a angústia mental.
Precisamos compreender o ego, para entendermos que ele é a fonte de nossos problemas. Isto não significa ser autocentrados, mas sim prestar atenção aos pensamentos, sentimentos e atividades do ego, seu condicionamento cultural, pessoal e biológico. Isso é meditação.
O homem que deixou essas palestras e escritos viveu como um dos grandes excluídos da sociedade: os rebeldes, os poetas errantes, os filósofos religiosos, os sábios iconoclastas, os cientistas e os psicólogos pioneiros, os grandes mestres viajantes de todos os milênios. Por 65 anos, Krishnamurti falou de liberdade psicológica para quem quisesse ouvi-lo. Fundou escolas onde crianças, adolescentes e jovens adultos estudam todas as matérias normais e aprendem a conhecer a si mesmos. Nessas escolas, assim como nas palestras e no que escreveu, ele mostra que não serão as guerras – interiores e exteriores – que nos libertarão, mas sim a verdade a respeito de nós mesmos.
Não há caminho, autoridade ou guru a seguir. Você tem capacidade para descobrir o que você é, e o que esta fazendo com sua vida, seus relacionamentos e seu trabalho. Você precisa vivenciar o que este livro diz. A verdade de outra pessoa é apenas uma opinião, até que nos mesmos a experimentamos. Olhe você mesmo pelo microscópio ou ficará com uma poeira de palavras, não a real percepção da vida.
Em geral, somos ensinados sobre o que pensar, mão não como pensar. Apreendemos a escapar da solidão e do sofrimento mental, mas não a eliminá-los.
Tudo o que está neste livro foi extraído dos escritos de Krishnamurti, de seus diálogos gravados e de palestras públicas. Leia-o e veja por si próprio que acontece.
Uma última observação: “K”, como esse mestre chamava a si mesmo, freqüentemente pedia desculpas às mulheres por usar as palavras “ele”, “dele” e “homem” em seus escritos e palestras. Ele incluía todos os seres humanos em seus ensinamentos.
Dale Carlson
Editor

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O indivíduo e a sociedade


Jiddu Krishnamurti (*)

 

CAMINHÁVAMOS POR UMA RUA movimentada. As calçadas estavam apinhadas de pessoas e o cheiro dos canos de descarga dos carros e ônibus enchiam nossas narinas. As lojas exibiam muitos artigos caros e também de qualidade inferior. O céu trazia uma clara cor prateada e foi agradável entrar no parque ao deixarmos a rua de trânsito pesado. Adentramos mais no parque e nos sentamos.

Ele dizia que o Estado, com sua militarização e legislação, estava absorvendo o indivíduo quase em toda parte, e que a veneração ao Estado agora tomava o lugar da veneração a Deus. Na maioria dos países, o Estado estava penetrando na própria intimidade da vida de seu povo; o Estado dizia o que deviam ler e o que deviam pesar. O Estado espionava seus cidadãos, mantendo uma vigilância divina sobre eles, assumindo a função da Igreja. Era a nova religião. O homem costumava ser um escravo da Igreja, mas agora e um escravo do Estado. Antes era a Igreja, agora era o Estado a controlar sua educação; e nenhum dos dois estava interessado na libertação do homem.

Qual é o relacionamento do indivíduo com a sociedade? Obviamente, a sociedade existe para os indivíduos, não o contrário. A sociedade existe para a fruição do homem; existe para dar liberdade ao indivíduo, para que ele possa ter a oportunidade de despertar a inteligência superior. Essa inteligência não é o simples cultivar de uma técnica ou do conhecimento; é estar em contato com aquela realidade criativa que não pertence à mente superficial. A inteligência não é um resultado cumulativo, mas uma libertação da realização e do sucesso progressivos. A inteligência jamais é estática; ela não pode ser copiada e padronizada, e portanto não pode ser ensinada. A inteligência é descoberta na liberdade.

A vontade coletiva e sua ação, que é a sociedade, não oferece essa liberdade para o indivíduo; pois a sociedade, não sendo orgânica, é sempre estática. A sociedade é composta e estruturada para a conveniência do homem; ela não tem um mecanismo independente próprio. Os homens podem capturar a sociedade, guiá-la, moldá-la, tiranizá-la dependendo de seus estados psicológicos, mas a sociedade não é o senhor do homem. Ela pode influenciá-lo, mas o homem sempre a desmonta. Existe conflito entre o homem e a sociedade porque o homem está em conflito consigo mesmo; e o conflito é entre aquilo que é estático e aquilo que é dinâmico. A sociedade é a expressão exterior do homem. O conflito entre ele e a sociedade é o conflito que existe nele mesmo. Esse conflito, externo e interno, sempre existirá, até que a inteligência superior seja despertada.

Nós somos tanto entidades sociais quanto indivíduos; somos cidadãos assim como homens, tornando-nos isolados em dor e prazer. Para haver paz, temos de entender o relacionamento correto entre o homem e o cidadão. Claro, o Estado preferiria que fôssemos unicamente cidadãos; mas essa é a estupidez dos governos. Nós mesmos gostaríamos de entregar o homem ao cidadão; pois é mais fácil ser um cidadão do que um homem. Ser um bom cidadão é funcionar eficientemente dentro do padrão de uma dada sociedade. A eficiência e a conformidade são exigidas do cidadão, pois elas endurecem-no, tornam-no cruel; e depois ele é capaz de sacrificar o homem pelo cidadão. Um bom cidadão não é necessariamente um bom homem; mas um bom homem está fadado a ser um cidadão correto, não de alguma sociedade ou país em particular. Como ele é principalmente um bom homem, seus atos não serão anti-sociais, ele não estará contra um outro homem.  Ele viverá em cooperação com outros homens bons; ele não buscará autoridade, pois ele não tem autoridade; ele será capaz da eficiência, sem a sua crueldade. O cidadão tenta sacrificar o homem; mas o homem que está buscando a inteligência superior naturalmente evitará a estupidez do cidadão. Assim, o Estado será contra o homem bom, o homem de inteligência; mas esse homem estará livre de todos os governos e nações.

O homem inteligente produzirá uma boa sociedade; mas o bom cidadão não dará origem a sua sociedade em que o homem possa ter uma inteligência mais elevada. O conflito entre o cidadão e o homem será inevitável se o cidadão predominar; e qualquer sociedade que deliberadamente negligencie o homem estará condenada.  Só existe a conciliação entre o cidadão e o homem quando o processo psicológico do homem for entendido. O Estado e a sociedade atual não estão interessados no homem interior, mas somente no homem exterior, o cidadão. Ele pode rejeitar o homem interior, mas ele sempre supera o exterior, destruindo os planos astutamente tramados pelo cidadão. O Estado sacrifica o presente pelo futuro, sempre resguardando-se para este; ele considera o futuro completamente importante, não o presente. Mas para o homem inteligente o presente é da mais alta importância; o agora e não o amanhã. O que é só pode ser entendido com o desaparecimento do amanhã. O entendimento do que é efetua a transformação no presente imediato. É essa transformação que é de importância suprema e não como conciliar o cidadão com o homem. Quando essa transformação acontece, o conflito entre o homem e o cidadão cessa.


(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – volume 1 /Jiddu Krishnamurti.  Rio de Janeiro: Nova Era, 2007

 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Contentamento


Jiddu Krishnamurti (*)

O AVIÃO ESTAVA LOTADO. Voava a mais de seis mil metros sobre o Atlântico e havia um grosso tapete de nuvens abaixo dele. O céu acima era intensamente azul, o sol estava por trás de nós e voávamos em direção ao oeste. As crianças tinham brincado, correndo de um lado para o outro no corredor, e agora, cansadas, dormiam. Após a longa noite, todos os outros estavam acordados, fumando e bebendo. Um homem em frente contava a outro sobre seus negócios, e uma mulher no assento detrás descrevia em voz agradável as coisas que comprara e especulava sobre o valor do imposto que teria de pagar. Naquela altitude, o voo era tranquilo, não havia solavancos, apesar dos ventos fortes abaixo de nós. As asas do avião brilhavam na clara luz do sol e as hélices giravam suavemente, cortando o ar em uma velocidade fantástica; o vento estava por trás de nós e estávamos fazendo mais de 450km/h.

Dois homens do outro lado do estreito corredor conversavam bem alto, e era difícil não ouvir o que eles diziam. Eram homens grandes, e um tinha o rosto vermelho, castigado pelo clima. Ele explicava o comércio de matar baleias, como era arriscado, o lucro que havia nisso e como os mares eram assustadoramente bravios. Algumas baleias pesavam centenas de toneladas. As mães com filhotes não deviam ser mortas, nem eles tinham permissão de matar mais do que um certo número de baleias em um período específico. O abate desses grandes monstros parecia ser elaborado com muito conhecimento científico, cada grupo tendo um trabalho especial para fazer pelo qual era tecnicamente treinado. O cheiro do navio-fábrica era quase intolerável, mas as pessoas se acostumavam com isso, como se acostumavam com quase tudo. Mas havia uma grande quantidade de dinheiro nisso se tudo corresse bem. Ele começou a explicar a estranha fascinação de matar, mas naquele momento foram servidas as bebidas e o assunto mudou de rumo.

Os homens gostam de matar, quer seja um ao outro ou um cervo inofensivo, com olhos arregalados, no meio da floresta, ou um tigre que atacou o gado. Uma cobra é deliberadamente atropelada na estrada; uma armadilha é montada para um lobo ou um coiote ser apanhado. Pessoas bem vestidas, rindo, saem com suas preciosas armas e matam pássaros que pouco antes piavam uns para os outros. Um menino mata um gaio chilreante com sua espingarda de ar comprimido, e os velhos à sua volta nunca dizem uma palavra de lamento nem ralham com ele; pelo contrário, dizem que bom atirador ele é.  Matar pelo chamado esporte, por alimento, pelo seu país, pela paz – não há diferença em tudo isso. Justificativa não é a resposta. Só existe; não mate. No Ocidente, achamos que os animais existem para o bem de nossos estômagos, para o prazer de matar ou por suas peles. No Oriente, é ensinado há séculos e repetido por cada pai: não mate, seja piedoso, seja compassivo. Aqui, os animais não têm alma, então eles poder ser mortos com impunidade; lá, os animais têm alma, portanto reflita e deixe seu coração conhecer o amor. Comer animais, pássaros, é considerado aqui uma coisa natural, normal, sancionada pela Igreja e pelos anúncios; lá não é, e os sensatos, os religiosos, por tradição e cultura, nunca fazem. Mas isso também está rapidamente desmoronando. Aqui sempre matamos em nome de Deus e do país, e agora está em toda parte. O ato de matar está disseminado; quase da noite para o dia, as culturas antigas estão sendo varridas para o lado e a eficiência, crueldade e os meios de destruição estão sendo cuidadosamente alimentados e fortalecidos.

A paz não está com o político ou com o padre, nem está com o advogado ou com o policial. A paz é um estado de espírito quando existe amor.

Ele era um homem de uma pequena empresa, lutava mas conseguia viver com o que ganhava.

“Eu não vim falar sobre meu trabalho”, disse. “Ele me proporciona o que preciso, e como minhas necessidades são poucas, estou bem. Não sendo superambicioso, não estou no jogo da competição ferrenha. Um dia, quando estava passando, vi uma multidão embaixo das árvores e parei para ouvi-lo. Isso foi há uns dois anos, e o que você disse fez surgir uma inquietação em mim. Não sou culto, mas agora leio suas palestras e aqui estou. Eu costumava estar contente com minha vida, com meus pensamentos e com as poucas crenças que estavam pousadas levemente em minha mente. Mas, desde aquela manhã de domingo, quando vagava por este vale no meu carro e vim por acaso ouvir você, tenho estado descontente. Não é tanto com meu trabalho que estou descontente, mas o descontentamento tomou conta de todo o meu ser. Eu costumava sentir pena das pessoas que eram descontentes. Elas eram tão infelizes, nada as satisfazia – e agora entrei para essa categoria. Eu já estive satisfeito com minha vida, com meus amigos e com as coisas que estava fazendo, mas agora estou desconte e infeliz.”

Se posso perguntar, o que quer dizer com a palavra “descontente”?

“Antes daquela manhã de domingo, quando eu o ouvi, era um indivíduo contente, e suponho que um tanto aborrecido para outros; agora vejo como era estúpido e estou tentando ser inteligente e alerta a tudo à minha volta. Quero chegar a algo, chegar em algum lugar, e esse anseio naturalmente causa descontentamento. Eu costumava estar adormecido, se posso dizer assim, mas agora estou acordando.”

Você está acordando ou está tentando por a si mesmo para dormir novamente pelo desejo de se tornar algo? Você diz que estava dormindo, e que agora você está acordado; mas esse estado desperto o torna descontente, o que o desagrada, causa-lhe dor, e para fugir dessa dor você está tentando tornar-se algo, seguir um ideal e assim por diante. Essa imitação está pondo você para dormir novamente, não está?

“Mas não quero voltar a meu velho estado, quero realmente ficar acordado.”

Não é muito estranho como a mente se engana? A mente não gosta de ser perturbada, ela não gosta de ser sacudida de seus antigos padrões, seus hábitos confortáveis de pensamento e ação; sendo perturbada, ela procura meios e maneiras de estabelecer novos limites e pastos nos quais possa viver com segurança. É essa zona de segurança que a maioria de nós está buscando, e é o desejo de estar seguro, de estar protegido, que nos põe para dormir. As circunstâncias, uma palavra, um gesto, uma experiência, podem nos acordar, nos perturbar, mas queremos ser postos novamente para dormir. Isso está acontecendo com a maioria de nós o tempo todo, e não é um estado desperto. O que temos de entender são os meios pelo quais a mente se põe para dormir. É isso, não é?

“Mas deve haver um grande número de meios pelos quais a mente se põe para dormir. É possível conhecer e evitar todos eles?”

Vários podem ser indicados; mas isso não resolveria o problema, não é?

“Por que não?”

Simplesmente aprender os meios pelos quais a mente se põe para dormir é novamente encontrar um meio, talvez diferente, de não ser perturbado, de estar protegido. A coisa importante é manter-se acordado e não perguntar como se manter acordado; a busca do “como” é o anseio de estar seguro.

“Então, o que se pode fazer?”

Ficar com o descontentamento sem desejar pacificá-lo. É o desejo de não ser perturbado que precisa ser entendido. Esse desejo, que assume muitas formas, é o anseio de fugir do que é. Só quando esse anseio desaparece – mas não por meio de qualquer forma de compulsão consciente ou inconsciente é que a dor do descontentamento cessa. Comparar o que é com o que deveria ser traz dor. A cessação da comparação não é um estado de contentamento; e um estado de vigília, sem as atividades do ser.

“Tudo isso é muito novo para mim. Parece-me que você dá às palavras um significado diferente, mas a comunição só é possível quando nós damos o mesmo significado à mesma palavra ao mesmo tempo.”

Comunicação é relacionamento, não é?

“Você pula para significados mais amplos que sou capaz de entender. Eu preciso entrar mais profundamente nisso tudo e depois talvez entenda.”

 
(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 2 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2009

 

 

 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A busca da verdade


Jiddu Krishnamurti (*)


ELE VIERA DE MUITO LONGE, viajando por vários milhares de quilômetros de barco e avião. Falava apenas seu próprio idioma e com maior dificuldade estava se ajustando a esse novo e perturbador ambiente. Não estava absolutamente acostumado a esse tipo de alimento e a esse clima; tendo nascido e sido criado em uma altitude muito elevada, o calor úmido tinha um efeito ruim sobre ele. Era um homem culto, uma espécie de cientista, e escrevera alguns trabalhos. Parecia bem familiarizado com ambas as filosofias, ocidental e oriental, e fora católico apostólico romano. Disse que estava insatisfeito com tudo há muito tempo, mas levara adiante por causa da família. Seu casamento era o que poderia ser considerado feliz, e ele amava seus dois filhos. Eles estavam agora na faculdade naquele país longínquo, e tinham um futuro brilhante. Mas a insatisfação em relação à sua vida e atividade foi aumentando constantemente ao longo dos anos, e ele enfrentou uma crise há alguns meses. Deixou a família e tomou todas as providências necessárias em relação à mulher e aos filhos, e agora aqui estava ele. Tinha dinheiro suficiente apenas para o básico, e viera encontrar Deus. Ele disse que não estava, de maneira alguma, desequilibrado e que tinha clareza sobre seu propósito.

Equilíbrio não é um assunto para ser julgado pelos frustrados ou pelos bem-sucedidos. Os bem-sucedidos podem ser os desequilibrados; e os frustrados tornam-se amargos e cínicos ou encontram uma fuga através de alguma ilusão projetada. O equilíbrio não está nas mãos dos analistas; ajustar-se às normas não necessariamente indica equilíbrio. As próprias normas podem ser o produto de uma cultura desequilibrada. Uma sociedade aquisitiva, com seus padrões e normas, é desequilibrada, seja de esquerda ou de direita, quer seja aquisitividade investida no Estado ou em seus cidadãos. Equilíbrio seria a não-aquisitividade. A idéia de equilíbrio e não-equilíbrio está ainda no campo do pensamento e, portanto, não pode ser o juiz. O próprio pensamento, a reação condicionada com seus padrões e julgamentos, não é a verdade. A verdade não é uma idéia, uma conclusão.

Pode Deus ser encontrado por meio da procura? Você pode procurar pelo incognoscível? Para encontrar, você deve conhecer o que está procurando. Se você procura para encontrar, o que você encontrar será uma projeção; será o que você deseja, e a criação do desejo não é a verdade. Procurar a verdade é negá-la. A verdade não tem residência fixa; não há um caminho nem um guia para ela, e a palavra não é a verdade. Será a verdade encontrada em um cenário particular, em um clima especial, entre certas pessoas? Está aqui e não ali? Este é o guia para a verdade e não um outro? Existe realmente um guia? Quando a verdade é procurada, o que é encontrado só pode surgir da ignorância, pois a própria busca nasce da ignorância. Você não pode procurar a realidade; você deve cessar para que a realidade seja.

“Mas não posso encontrar o sem-nome? Eu vim para este país porque aqui há um sentimento maior por essa busca. Materialmente, pode-se ser mais livre aqui, não é necessário possuir tantas coisas; as posses não lhe sobrecarregam aqui como em outros lugares. É por isso, em parte, que as pessoas vão para mosteiros. Mas existem fugas psicológicas em ir para um mosteiro e, como eu não quero fugir para um isolamento organizado, estou aqui, vivendo minha vida para encontrar o sem-nome. Será que tenho capacidade para encontrá-lo?”

É uma questão de capacidade?  A capacidade não implica seguir um rumo particular de ação, um caminho predefinido, com os ajustes necessários? Quando você faz essa pergunta, não está perguntando se você, um indivíduo comum, tem os meios necessários de obter o que deseja? Certamente sua pergunta sugere que somente os excepcionais encontram a verdade, e não o homem comum. Será a verdade concedida apenas a uns poucos, aos excepcionalmente inteligentes? Por que perguntamos se somos capazes de encontrá-la? Nós temos o padrão, o exemplo do homem que, presume-se, tenha descoberto a verdade; e o exemplo, sendo elevado muito acima de nós, cria incerteza em nós mesmos. O exemplo, consequentemente, assume grande importância, e há uma competição entre o exemplo e nós mesmos; nós também ansiamos por ser aquele que bate o recorde. Essa pergunta, “Eu tenho capacidade?”, não surge da comparação consciente ou inconsciente da pessoa entre o que ela é e o que ela supõe que o exemplo seja?

Por que nos comparamos com o ideal? E trará a comparação entendimento? O ideal é diferente de nós? Não é uma projeção, uma coisa criada por nós, e isso não impede, portanto, nosso entendimento de como nós somos? A comparação não é uma fuga do entendimento de nós mesmos? Existem muitos modos de fugirmos de nós mesmos, a comparação é um deles. Certamente, sem o autoentendimento a busca pela chamada realidade é uma fuga de si mesmo. Sem autoconhecimento, o deus que você busca é o deus da ilusão; e a ilusão, inevitavelmente, traz conflito e dor. Sem autoconhecimento, não pode haver raciocínio correto; e então todo o conhecimento é ignorância que só pode levar a confusão e à destruição. O autoconhecimento não é o objetivo final; é a única ferramenta de acesso ao inexaurível.

“O autoconhecimento não é extremamente difícil de ser adquirido e não leva muito tempo?”

A própria noção de que o autoconhecimento é difícil de se adquirir é um obstáculo ao autoconhecimento. Se me permite sugerir, não suponha que será difícil ou que levará muito tempo; não predetermine o que é e o que não é. Comece.  O autoconhecimento é para ser descoberto na ação do relacionamento; e toda a ação é relacionamento. O autoconhecimento não surge pelo auto-isolamento, pelo recolhimento; a negação da relação é a morte. A morte é a resistência suprema. A resistência, que é repressão, substituição ou sublimação em qualquer forma, é um obstáculo ao fluxo do autoconhecimento; mas a resistência é para ser descoberta no relacionamento, na ação. A resistência, seja negativa ou positiva, com suas comparações e justificativas, suas condenações e identificações, é a rejeição do que é. O que é está implícito; e a percepção do implícito, sem qualquer escolha, é a revelação dele. Essa revelação é o início da sabedoria. A sabedoria é essencial para que o desconhecido, o inexaurível, tome forma.

 

 (*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 1 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A simplicidade interior


Roberto Lira

Pensamos a simplicidade interior como algo que tem uma relevância muito maior do que a simplicidade de se satisfazer com pouca posse ou poucas coisas no cotidiano a vida. Ficar livre do fardo de várias coisas, especialmente, da posse de bens materiais ou abandono de algum vício degradante ou deteriorante, é relativamente fácil quando a jornada pessoal busca algo além da trivialidade da vida. Dar valor a poucas posses ou ser virtuoso nas condutas sociais não é ter simplicidade interior, isso nada mais é do que exteriorizar ausência de sofisticação.

Não queremos nesta reflexão desmerecer a simplicidade exterior, ela tem sua importância, pois não deixa de ser uma ação de probidade. Mas por que será que, geralmente, começamos com a simplicidade exterior e não com a interior? Será a razão disso nosso desejo, subliminar, de nos engrandecer aos olhos dos outros? Esse desejo, imposto pela mente, não aumenta nossa complexidade e vez de nos tornar simples, integralmente? Pensamos que a simplicidade interior nos leva também a ser simples exteriormente, mas nem sempre a simplicidade exterior nos leva a simplicidade interior. Portanto, a simplicidade interior é prioritária em nossas vidas.

Ser interiormente simples é não apresentar contradição dentro si mesmo. A simplicidade interior começa por ser honesto consigo mesmo, quando somos capazes de reconhecer que mentimos quando mentimos e não esconder tal fato ou fugirmos dele. A simplicidade interior entre outras coisas nos torna capaz de olhar a nós mesmos sem qualquer desfiguração, de vermos o falso como falso e o verdadeiro como verdadeiro que existe em cada um de nós.

Ser simples interiormente nos torna capaz de observarmos as coisas sem intermediários e sem medo. Disso decorre uma percepção das coisas de forma clara, direta, sem palavras, sem símbolos e sem ideias. A simplicidade interior conduz nossas ações sem ideias e permite enfrentarmos aquilo que é, a cada minuto, com condutas livres e criadoras.

Há simplicidade interior resulta do autoconhecimento, quando compreendemos a nós mesmos: os movimentos de nossos pensamentos, nossas reações com outros, nossos conformismos para nos protegermos, nossa dependência das autoridades religiosas e/ou políticas. Essa simplicidade não pode existir quando nos apegamos a qualquer crença ou dogma, ela surgirá quando formos livres interiormente.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Meu caminho e seu caminho"


Jiddu Krishnamurti (*)
 

ELE ERA UM ESTUDIOSO, falava muitos idiomas e era viciado em conhecimento como uma outra pessoa o é em bebidas alcoólicas. Estava incessantemente citando terceiros para apoiar suas próprias opiniões. Interessava-se por ciências e artes, e quando dava sua opinião, era com um movimento de cabeça e um sorriso que transmitia de um modo sutil que não era meramente sua opinião, mas a verdade final. Disse que tinha suas próprias experiências, abalizadas e convincentes para ele. “Você também tem suas experiências, mas não pode me convencer”, disse ele.  “Você segue o seu caminho, e eu o meu. Existem caminhos diferentes para a verdade, e todos vamos nos encontrar lá um dia.” Era amistoso, de uma forma distante, mas firme. Para ele os Mestres, embora não gurus reais e visíveis, eram uma realidade, e tornar-se seu discípulo era fundamental. Ele e vários outros designavam como discípulos àqueles que estivessem dispostos a aceitar esse caminho e a autoridade deles; mas ele e seu grupo não pertenciam àqueles que, pelo espiritualismo, descobriam guias entre os mortos. Para encontrar os Mestres você deve servir, trabalhar, sacrificar-se, obedecer e praticar certas virtudes; e, claro, a crença era necessária.

Estar preso à ilusão é fiar-se na experiência como um meio de descobrir o que é. O desejo e o anseio condicionam a experiência; e depender da experiência como um meio para o entendimento da verdade é buscar um modo de auto-engradecimento. A experiência jamais pode trazer libertação da dor; a experiência não é uma resposta adequada ao desafio da vida. O desafio deve ser enfrentado de modo novo, fresco, pois o desafio é sempre novo. Para entender o desafio de forma adequada, a memória condicionada da experiência deve ser posta de lado, as reações de prazer e dor dever ser profundamente entendidas. A experiência é um impedimento à verdade, pois ela pertence ao tempo, é o resultado do passado; e como pode a mente, que é o resultado da experiência, do tempo, entender o que é atemporal? A verdade da experiência não depende de idiossincrasias e fantasias pessoais; a verdade disso e percebida apenas quando há atenção sem censura, justificativa ou qualquer forma de identificação. A experiência não é uma abordagem à verdade; não existe “sua experiência” ou “minha experiência”, mas apenas a compreensão inteligente do problema.

Sem autoconhecimento a experiência produz ilusão; com autoconhecimento a experiência, que é a resposta ao desafio, não deixa um resíduo acumulativo como memória. O autoconhecimento é a descoberta momento a momento dos mecanismos do Eu, de suas intenções e buscas, seus pensamentos e desejos. Jamais pode haver “sua experiência” e “minha experiência”; o próprio termo “minha experiência” indica ignorância e aceitação da ilusão. No entanto, muitos gostam de viver em ilusão, pois há grande satisfação nela; é um refúgio particular que nos estimula e dá um sentimento de superioridade. Se tenho capacidade, talento ou astúcia, torno-me um líder, um intermediário, um representante daquela ilusão; e como a maioria das pessoas adora evitar o que é, há a construção de uma organização com propriedades e rituais, com votos e reuniões secretas. A ilusão é vestida de acordo com a tradição, sendo mantida dentro do campo da respeitabilidade; e como a maioria busca poder de uma forma ou de outra, o princípio hierárquico é estabelecido, o iniciante e o iniciado, o discípulo e o Mestre, e mesmo entre os Mestres existem níveis de progresso espiritual. A maioria adora explorar e ser explorado, e esse sistema oferece os meios, quer sejam ocultos ou claros.

Explorar é ser explorado. O desejo de usar outros para suas necessidades psicológicas produz dependência, e quando você depende, precisa manter, possuir; e o que você possui, possui você. Sem dependência, sutil ou evidente, sem possuir coisas, pessoas e ideias, você é vazio, uma coisa sem importância. Você quer ser algo, e para evitar o medo atormentador de ser nada você pertence a essa ou àquela organização, a essa ou àquela ideologia, a essa igreja ou àquele templo; assim você é explorado e, por sua vez, explora. Essa estrutura hierárquica oferece excelente oportunidade de auto-expansão. Você pode querer fraternidade, mas como pode haver fraternidade se você está buscando distinções espirituais? Você pode rir dos títulos mundanos; mas quando você admite o Mestre, o salvador, o guru no domínio do espírito, não está persistindo na atitude mundana? Podem haver divisões hierárquicos ou níveis de progresso espiritual na compreensão da verdade, na percepção de Deus? O amor não admite divisão. Ou você ama ou não ama; mas não faça da falta de amor um processo arrastado cuja finalidade é o amor. Quando você sabe, você não ama; quando você está atentamente desprovido de escolha quanto a esse fato, há aí uma possibilidade de transformação; mas diligentemente cultivar essa distinção entre o Mestre e o discípulo, entre aqueles que conseguiram e aqueles que não conseguiram, entre o salvador e o pecador, é negar o amor. O explorador, que por sua vez é explorado, encontra uma feliz zona de caça nesse ambiente escuro e ilusório.

A separação entre Deus ou a realidade e você é produzida por você, pela mente que se prende ao conhecido, à certeza, à segurança. Essa separação não pode ser ligada por uma ponte; não existe ritual, nenhuma disciplina, nenhum sacrifico que possa levá-lo a atravessá-lo; não existe nenhum salvador, nenhum Mestre, nenhum guru que possa levá-lo ao real ou destruir essa separação. A divisão não é entre o real e você; é em você, é o conflito de desejos opostos. O desejo cria seu próprio oposto; e a transformação não é uma questão de estar centrado em um desejo, mas de estar livre do conflito que o anseio causa. O anseio, em qualquer nível do ser de um indivíduo, gera mais conflito, e daí tentamos fugir de todas as maneiras possíveis, o que apenas aumenta o conflito, tanto interno quanto externo. Este não pode ser dissolvido por uma outra pessoa, por mais excelente que seja, nem por qualquer mágica ou ritual. Estes podem lhe anestesiar de forma agradável, mas, quando acordar, o problema ainda existirá. Mas a maioria não quer acordar, e assim vivemos em ilusão. Com a dissolução do conflito há tranquilidade, e só então a realidade pode tomar forma. Os Mestres, salvadores e gurus não são importantes, mas o que é essencial é entender o crescente conflito do desejo; e esse entendimento vem apenas por meio do autoconhecimento e da atenção constante aos movimentos do Eu.

A autopercepção é trabalhosa, e visto que a maioria prefere um caminho fácil e ilusório, trazemos à existência a autoridade que dá forma e padrão à nossa vida. Essa autoridade pode ser coletiva, o Estado; ou pode ser pessoal, o Mestre, o salvador, o guru. A autoridade de qualquer tipo é cegante, leva a ações irrefletidas; e como a maioria acha que ser ponderado é um esforço, entregamo-nos à autoridade.

A autoridade produz poder e o poder sempre se torna centralizado e, portanto, totalmente corruptível; ele corrompe não apenas quem o empunha, mas também aquele que o segue. A autoridade do conhecimento e da experiência perverte, quer seja conferida ao Mestre, a seu represente ou ao padre. É sua própria vida, esse conflito aparentemente interminável, que é significante, não o padrão ou o líder. A autoridade do Mestre e do padre o afasta da questão central, que é o conflito dentro de si mesmo. O sofrimento nunca pode ser entendido e dissolvido por meio da busca por um modo de vida. Tal busca é mero evitar o sofrimento, a imposição de um padrão, que é fuga; e o que é evitado apenas inflama, trazendo mais calamidade e dor. O entendimento de si mesmo, por mais doloroso ou passageiramente prazeroso, é o início da sabedoria.

Não existe caminho para a sabedoria. Se houver um caminho, a sabedoria será o formulado, já conhecida, já imaginada. Pode a sabedoria ser conhecida ou cultivada? É uma coia a ser aprendida, acumulada? Se for, então se torna mero conhecimento, uma coisa da experiência e dos livros. A experiência e o conhecimento são uma cadeia continua de reações e, portanto, nunca podem compreender o novo, o fresco, o não-criado. A experiência e o conhecimento, sendo contínuos, formam um caminho para suas próprias projeções, e desse modo estão constantemente tolhendo. A sabedoria é o entendimento do que é de momento a momento, sem o acúmulo de experiências e conhecimento. O que é acumulado não dá liberdade para entender, e sem liberdade não há descobrimento; e é essa descoberta incessante que cria a sabedoria. Ela é sempre nova, sempre fresca, e não há meios de acumulá-la. Os meios destroem o frescor, a novidade, a descoberta espontânea.

Os muitos caminhos para uma realidade são a invenção de uma mente intolerante; são o resultado de uma mente que cultiva a tolerância. “Eu sigo meu caminho e você segue o seu, mas sejamos amigos e nos encontraremos finalmente.” Você e eu nos encontraremos se você estiver indo para o norte e eu para o sul? Podemos ser amigos se você tem um conjunto de crenças e eu outro, se eu sou um assassino coletivo e você um pacifista? Ser amigo subentende relacionamento em trabalho, em pensamentos; mas existirá qualquer relação entre o homem em ilusão e aquele que é livre?  O homem livre pode tentar estabelecer algum tipo de relacionamento com aquele em cativeiro; mas aquele que está em ilusão não pode ter um relacionamento com o homem livre.

O separado, prendendo-se à sua separação, tenta estabelecer um relacionamento com outros que também estão fechados em si mesmos; tais tentativas, invariavelmente, criam conflito e dor. Para evitá-la, os inteligentes inventam a tolerância, cada um examinando sua barreira autolimitante e tentando ser gentil e generoso. A tolerância é da mente, não do coração. Você fala de tolerância quando ama? Mas quando o coração está vazio a mente o enche com seus mecanismos astutos e seus medos. Não existe comunhão onde há tolerância.

Não existe um caminho para a verdade. A verdade deve ser descoberta, mas não existe uma fórmula para seu descobrimento. O que é formulado não é verdadeiro. Você deve partir para o mar inexplorado, e o mar inexplorado é você mesmo. Você deve partir para se descobrir, mas não segundo algum plano ou padrão, porque aí não há descobrimento. O descobrimento traz alegria – não a alegria lembrada, comparativa, mas a alegria sempre nova. O autoconhecimento é o início da sabedoria em cujo silêncio e tranquilidade existe o incomensurável.

 
(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 1 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Política


Jiddu Krishnamurti (*)
 
BEM ALTO NAS MONTANHAS chovera todo o dia. Não era uma chuva fina, leve, mas um daqueles aguaceiros torrenciais que levam as estradas e desenterram as árvores nas colinas, causando deslizamentos de terra e turbulências nos rios, que ficam calmos em algumas horas.  Um menininho, molhado até os ossos, brincava em uma lagoa rasa e não prestava a menor atenção à voz zangada e estridente de sua mãe. Uma vaca descia pela estrada lamacenta enquanto subíamos. As nuvens pareciam se abrir e cobrir a terra de água.  Estávamos encharcados e retiramos a maioria de nossas roupas, e o contato da chuva com a pele era agradável. A casa situava-se bem alto na encosta da montanha e a cidade estava abaixo. Um vento forte soprava do oeste, trazendo mais nuvens escuras e furiosas.

Havia uma lareira na sala e várias pessoas estavam aguardando para discutir temas. A chuva, batendo nas janelas, formara uma grande poça no chão e a água descia até pela chaminé, fazendo o fogo crepitar.

Ele era um político muito famoso, realista, profundamente sincero e ardentemente patriota. Não era intolerante nem interesseiro, sua ambição não era dirigida a si mesmo, mas a uma idéia e ao povo.  Não era um mero pregador empolado e eloquente ou um caçador de votos; ele sofrera pela causa e, curiosamente, não era amargo. Parecia mais um erudito que um político. Mas a política era o alento da sua vida e o seu partido o obedecia, embora com certo nervosismo. Ele era um sonhador, mas pusera tudo de lado pela política. Seu amigo, o economista-chefe, também estava lá; tinha teorias complicadas e temas voltados para a distribuição de enormes receitas. Parecia conhecido dos economistas tanto da direita quanto da esquerda, e tinha suas próprias teorias para a salvação econômica da humanidade. Falava com facilidade e não havia hesitação nas palavras. Ambos haviam discursado para grandes multidões.

Você já percebeu, nos jornais e nas revistas, a quantidade de espaço dado aos políticos, ao que dizem os políticos e às suas atividades? Claro, são fornecidas outras notícias, mas as notícias políticas predominam; a vida econômica e política tornou-se primordial. As circunstâncias exteriores – conforto, dinheiro, posição social e poder – parecem dominar e moldar nossa existência. A exibição exterior – o título, os trajes, a saudação, a bandeira – tornou-se cada vez mais importante e o processo total da vida foi esquecido ou deliberadamente posto de lado. É tão mais fácil lançar-se em uma atividade social e política do que compreender a vida como um todo. Estar associado a qualquer pensamento organizado, a atividades políticas ou religiosas, oferece uma fuga respeitável da mediocridade e da labuta da vida diária. Com um pequeno coração você pode falar de coisas importantes e dos líderes populares; pode ocultar sua superficialidade com as frases feitas dos assuntos mundiais; sua mente inquieta pode se acomodar feliz e com apoio popular para propagar a ideologia de uma nova ou de uma velha religião.

A política é a conciliação dos efeitos; e como a maioria de nós está preocupada com os efeitos, o exterior assumiu significado dominante. Pela manipulação de efeitos esperamos produzir ordem e paz; mas, infelizmente, não é tão simples assim. A vida é um processo total, tanto interior quanto exterior; e o exterior definitivamente afeta o interior, mas o interior invariavelmente sobrepuja o exterior. O que você é, você cria exteriormente. O exterior e o interior não podem ser separados e mantidos em compartimentos vedados, pois interagem constantemente um com o outro, mas o anseio interior, as buscas e os motivos ocultos são sempre mais poderosos. A vida não depende da atividade política ou econômica; a vida não é uma simples exibição exterior, assim como a árvore não é a folha ou o galho. A vida é um processo total cuja beleza só pode ser descoberta na sua integração. Essa não acontece no nível superficial das conciliações políticas e econômicas; ela se encontra além de causas e efeitos.

Por jogarmos com causas e efeitos e nunca irmos além deles, exceto verbalmente, nossas vidas são vazias, sem muito significado. É por esse motivo que nos tornamos escravos da empolgação política e do sentimentalismo religioso. Só existe esperança na integração dos vários processos a partir dos quais somos formados. Essa integração não acontece por meio de qualquer ideologia ou quando se obedece a qualquer autoridade em especial, política ou religiosa; ela acontece apenas por meio da percepção ampla e profunda. Essa percepção deve chegar aos níveis mais profundos da consciência e não se contenta com respostas superficiais.  


(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 1 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007