terça-feira, 14 de agosto de 2012

A "atenção passiva"




Roberto Lira

Ao depararmo-nos com a sugestão: mantenha-se passivamente atento, não nos parece que estamos diante de um paradoxo? Geralmente reagimos dizendo: como manter uma atenção passiva, se para ficarmos atento requer estar alerta, concentrado; enquanto que, ser passivo é não ter iniciativa, é ficarmos indiferente ou apático? Como unificar essas duas ações que semanticamente nos parece tão antagônicas?
Para achegarmo-nos a alguma compreensão desse aparente paradoxo que nos possa ser útil, talvez seja profícuo agregarmos a questão do observador e da coisa observada. Para isso, vamos nos amparar em um trecho do livro As Paixões do Ego*, de Humberto Mariotti, páginas 248/9, onde ele comenta essa questão da atenção passiva denominando-a de a fenomenologia da inocência:
 “Atenção passiva: a fenomenologia da inocência
Recordemos que Bohm assinala que a noção de que o observador não pode ser separado daquilo que observa surgiu na física quântica, como condição necessária ao entendimento das leis fundamentais da matéria. Na verdade, essa noção remonta às tradições védicas da Índia. Segundo Bohm, a descoberta fundamental de Krishnamurti foi perceber que não nos damos conta do que realmente acontece porque não temos consciência de nossos processos de pensamento. Para o filósofo indiano, em geral nos damos conta do que estamos pensando, mas pouco ou nada sabemos sobre como estamos pensando num determinado momento. Por outras palavras, não fizemos a epistemologia do nosso pensar. Isso decorre de que não estamos suficientemente atentos para ser capazes de observar os nossos processos de pensamento.
Como conhecer a estrutura e a função desses processos? Segundo Krishnamurti, por meio da auto-observação, mais especificamente do método que ele denomina de atenção passiva, que consiste em refletir e, ao mesmo tempo, estar atento ao que acontece enquanto se reflete. Mas é importante fazê-lo sem crítica, sem aceitar ou rejeitar desde logo o que se está percebendo. Sem tentar, enfim, dar de imediato “um sentido” ao que se percebe, mesmo porque esse “sentido”, no mais das vezes, não passa de uma forma de reduzir tudo ao que achamos que faz sentido.
Trata-se de refletir sem tentar logo de saída pôr ordem na confusão que muitas vezes surge em nossa mente enquanto pensamos. É fundamental não ceder à resistência inicial ao contato com idéias novas. Pelo contrário, é preciso deixá-las vir e examiná-las em seus mínimos detalhes, buscar a familiaridade com elas. Não nos esqueçamos de que essa resistência, esse espanto inicial, representava, para Aristóteles, o ponto de partida da investigação filosófica e não uma oposição a ela.
No entender de Krishnamurti, a atitude de evitar a intervenção precoce da crítica e da vontade permitirá que o pensamento se auto-regule. Por ser o cérebro um sistema autopoiético, a não-interferência imediata em seus processos permitirá que nos beneficiemos dos frutos dessa auto-regulação, que é sistêmica e acontece quando conseguimos que nossa mente fique quieta.”  

Segundo Krishnamurti, a auto-observação nos torna capaz de perceber que somos nossos próprios preconceitos (pensamentos) e não apenas observadores isentos destes. Ou seja, o observador é a coisa observada. Tal consideração não é difícil de entender intelectualmente, mas transformá-lo em mudanças significativas no viver, certamente, é o xis da questão. Essas mudanças, para Krishnamurti, não são desenvolvidas gradualmente: surgem instantaneamente, num insight; não dependem do tempo, do pensamento e por isso é imprescindível estar atento a eles. Ele afirma que quando observamos um sentimento, ou pensamento, por tempo suficiente geralmente ele se modifica ou desaparece. Todavia se a observação ocorre de forma coercitiva, tentando nos livrar dele, continuaremos como observadores. Desse modo, o sentimento, ou pensamento, cedo ou tarde voltará a nos incomodar, tendo em vista ter sido reprimido e não vivido na sua totalidade.
Manter essa “atenção passiva”, de modo integral nos nossos relacionamentos, é algo que só ocorre ocasionalmente no nosso viver. Mesmo assim, se estivermos consciente que ela é possível e quiçá necessária para alcançarmos a almejada liberdade que a quietude da mente pode nos proporcionar.
Atenção! Aqui e agora! 

* As Paixões do Ego: Complexidade, Política e Solidariedade. Humberto Mariotti. São Paulo: Palas Athena, 2000. 356 p.









segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Carma


Jiddu Krishnamurti (*)


O SILÊNCIO NÃO É para ser cultivado, não é para ser deliberadamente produzido; não é para ser buscado, racionalizado ou meditado. O cultivo deliberado do silêncio é como a satisfação de um prazer há muito desejado; o desejo de silenciar a mente é apenas a busca de sensação. Esse silêncio é somente uma forma de resistência, um isolamento que leva a deterioração. O silêncio que é comprado é uma coisa de mercado no qual há o ruído da atividade. O silêncio vem com a ausência do desejo. O desejo é ágil, astuto e profundo. A recordação interrompe a varredura do silêncio, e uma mente presa na experiência não pode estar silenciosa. O tempo, o movimento de ontem desaguando no hoje e no amanhã, não é silêncio. Com o cessar desse movimento, há silêncio, e só então aquilo que é inefável pode tomar forma.
 

“Eu vim para falar sobre carma. Claro que tenho algumas opiniões sobre isso, mas gostaria de conhecer as suas”.

Opinião não é verdade; devemos por de lado as opiniões para encontrar a verdade. Existem inúmeras opiniões, mas a verdade não é deste ou daquele grupo. Para o entendimento da verdade, todas as ideias, conclusões e opiniões precisam cair como as folhas secas de uma árvore. A verdade não é para ser encontrada em livros, em conhecimento, na experiência. Se você estiver buscando opiniões, não encontrará nenhuma aqui.

“Mas podemos conversar sobre carma e tentar entender sua importância, não?”

Isso, claro, é um assunto muito diferente. Para entender, as opiniões e as conclusões precisam cessar.

“Por que você insiste nisso?”

Você conseguirá entender algo se já tiver decidido sobre isso ou se repetir as conclusões de outra pessoa? Para encontrar a verdade desse assunto, não devemos abordá-lo de uma nova maneira, com uma mente que não esteja envolta em preconceitos? O que é mais importante: estar livre de conclusões, de preconceitos, ou especular sobre alguma abstração? Não é mais importante encontrar a verdade do que discutir sobre o que é a verdade? Não é importante descobrir a verdade com respeito ao carma? Ver o falso como o falso é começar a entender isso, não é? Como podemos ver a verdade ou o falso se nossa mente está firmemente entrincheirada na tradição, nas palavras e nas explicações? Se a mente estiver amarrada a uma crença, como ela poderá ir longe? Para viajar para longe, a mente precisa estar livre. A liberdade não é algo a ser obtido no final de um longo esforço; ela deve estar logo no início da viagem.

“Quero descobrir o que carma significa para você?”

Senhor, vamos fazer a viagem de descobrimento juntos. Simplesmente repetir as palavras de outra pessoa não tem muita importância. É como tocar um disco. A repetição ou imitação não produz liberdade. O que você quer dizer com carma?

“É uma palavra em sânscrito que significa fazer, ser, agir e assim por diante. Carma é ação, e ação é o resultado do passado. A ação não pode existir sem o condicionamento da formação. Por meio de uma série de experiências do condicionamento e do conhecimento, a formação da tradição é construída, não apenas durante a vida atual do indivíduo e do grupo, mas por meio de muitas encarnações. A constante ação e interação entre a formação, que é o “eu”, e sociedade, a vida, é o carma; e o carma cria um compromisso moral para a mente, o “eu”. O que fiz em minha vida passada, ou mesmo ontem, continua valendo e me molda, proporcionando-me dor ou prazer no presente. Há o carma de grupo ou coletivo e o individual. Tanto o de grupo quanto o individual estão contidos na cadeia de causa e efeito. Haverá sofrimento ou alegria, castigo ou recompensa, de acordo com que fiz no passado”.

Você diz que a ação resulta do passado. Essa ação não é ação absolutamente, mas apenas uma reação, não é? O condicionamento, a formação, reage a estímulos; essa reação é a resposta da memória, que não é ação, mas carma. No momento, não estamos preocupados com o que é ação. Carma é a reação que surge de certas causas e produz certos resultados. Carma é essa cadeia de causa e efeito. Basicamente, o processo do tempo é carma, não é? Desde que haja um passado, deve haver o presente e o futuro. Hoje e amanhã são os efeitos de ontem; ontem em conjunção com hoje cria o amanhã. Carma conforme é entendido de modo geral, é o processo de compensação.

“Como diz, carma é um processo do tempo, e a mente é resultado do tempo. Somente uns poucos afortunados podem escapar das garras do tempo; o restante de nós está unido ao tempo. O que fizemos no passado, bem ou mal, determina o que somos no presente.”

A formação, o passado, é um estado estático? Não está passando por modificações constantes? Você não é o mesmo hoje do que era ontem; tanto fisiológica quanto psicologicamente, há uma mudança constante acontecendo, não é?

“Claro.”

Então, a mente não é um estado fixo. Nossos pensamentos são transitórios, continuamente em mudança; eles são a resposta da formação. Se eu for criado em determinada classe social, em uma cultura definida, responderei aos desafios, aos estímulos, de acordo com meu condicionamento. Com a maioria de nós, esse condicionamento está tão enraizado que a resposta é quase sempre segundo o padrão. Nossos pensamentos são a resposta da formação. Nós somos a formação; esse condicionamento não está separado nem é dessemelhante de nós. Com a mudança da formação, nossos pensamentos também mudam.

“Mas, certamente, o pensador é totalmente diferente da formação, não é?”

Será? O pensador não é o resultado dos pensamentos dele? Ele não é composto de seus pensamentos? Há uma entidade separada, um pensador separado de seus pensamentos? O pensamento não criou o pensador, não deu a ele permanência no meio da impermanência dos pensamentos? O pensador é o refúgio do pensamento e se coloca em níveis diferentes de permanência.

“Percebo que isso é assim, mas é realmente um choque para mim perceber os truques que o pensamento está usando com ele mesmo.”

O pensamento é a resposta da formação, da memória; a memória é o conhecimento, o resultado da experiência. Essa memória, por meio de mais experiências e respostas, torna-se mais forte, maior, mais aguçada, mais eficiente. Uma forma de condicionamento pode ser substituída por outra, mas ainda será condicionamento. A resposta desse condicionamento é carma, não é? A resposta da memória é chamada de ação, mas ela é apenas reação; essa “ação” gera mais reação e assim há a suposta cadeia de causas e efeitos. Mas a causa também não é o efeito? Nem causa nem efeito são estáticos. Hoje é o resultado de ontem, e hoje é a causa de amanhã; o que foi a causa torna-se o efeito, e o efeito, a causa. Uma deságua na outra. Não existe um momento em que a causa não seja também o efeito. Somente o especializado é fixo em sua causa e, portanto, em seu efeito. O fruto do carvalho não pode tornar-se outra coisa que não seja um carvalho. Na especialização, há morte; mas o homem não é uma entidade especializada, ele pode ser o que desejar. Ele pode abrir caminho através de seu condicionamento – e ele precisará fazer isso, se quiser descobrir o real. Você precisa cessar de ser um suposto brâmane para perceber Deus.

O Carmo é um processo do tempo, o passado movendo-se pelo presente para o futuro; essa cadeia é o modo de pensar. O pensamento é o resultado do tempo, e só pode existir aquilo que é imensurável, eterno, quando o processo do pensamento cessa. A quietude da mente não pode ser induzida, não pode ser produzida por meio de uma prática ou disciplina. Se a mente for tornada quieta, então o que quer que chegue a ela será apenas uma autoprojeção, a resposta da memória. Com a compreensão do condicionamento da mente, com a conscientização sem escolha das próprias respostas dela como pensamentos e sentimentos, a tranquilidade chega à mente. Essa quebra da cadeia do carma não é uma questão de tempo; pois, por meio do tempo, o eterno não existe.

O carma precisa ser entendido como um processo total, não apenas como algo do passado. O passado é tempo, que também é o presente e o futuro. Tempo é memória, palavra, ideia. Só quando a palavra, o nome, a associação e a experiência não existem é que a mente está quieta, não só nas camadas superficiais, mas completa e integralmente.


(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 2 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era 2009

domingo, 5 de agosto de 2012

Tempo, hábito e ideais


Jiddu Krishnamurti (*)



CAÍRAM FORTES CHUVAS COM vários centímetros por dia durante mais de uma semana, e o rio estava muito cheio. Já transbordara de suas margens, e algumas aldeias foram alagadas. Os campos estavam debaixo d’água, e o gado teve de ser transferido para um terreno mais alto. Alguns centímetros mais e o rio cobriria a ponte, e, então, haveria verdadeiros problemas; mas quando estava prestes a alcançar o ponto perigoso, as chuvas pararam e o rio começou a baixar. Alguns macacos que haviam se refugiado nas árvores estavam isolados, e teriam de permanecer lá por um ou dois dias.

No início de certa manhã, quando as águas haviam baixado, partimos pelo campo aberto, que era plano quase até o pé das montanhas. A estrada passava por uma aldeia após outra, e por fazendas equipadas com máquinas modernas. Era primavera, e ao longo da estrada as árvores estavam em flor. O carro avançara suavemente. Havia o ronronar do motor, bem como o murmúrio da borracha dos pneus na estrada; e, ainda assim, havia um extraordinário silêncio em todos os lugares, entre as árvores, no rio, e sobre a terra plantada.  

A mente fica em silêncio apenas com a abundância de energia, quando há aquela atenção em que cessa toda contradição, toda pulsão do desejo em diferentes direções. O esforço do desejo de estar em silêncio não gera silêncio. O silêncio não deve ser adquirido através de qualquer forma de coerção, não é a recompensa da repressão ou mesmo da sublimação. Mas a mente que não está em silêncio jamais é livre. E só para a mente silenciosa é que os céus se abrem. O êxtase que a mente procura não é encontrado através de busca, nem reside na fé. Só a mente silenciosa pode receber aquela benção que não é da Igreja nem da crença. Para a mente estar em silêncio, todos os seus cantos contraditórios devem se unir e se fundir na chama da compreensão. A mente silenciosa não é uma mente reflexiva. Para refletir, deve haver o observador e o observado, o experimentador carregado de passado. Na mente silenciosa, não há centro a partir do qual se transformar, ser ou pensar. Todo desejo é contradição, pois cada centro de desejo se opõe a outro centro. O silêncio da mente total é meditação.



Era um homem bastante jovem, com uma cabeça grande, olhos claros e mãos de aparência habilidosa. Falava com facilidade e autoconfiança, e trouxera a esposa junto, uma moça digna que, evidentemente, não diria nada. Ela, provavelmente, viera sob a persuasão dele, e preferia ouvir.

“Sempre me interessei por questões religiosas”, disse ele, “e logo no início da manhã, antes que as crianças acordem e o burburinho da casa comece, passo um tempo considerável praticando a meditação. Acho-a muito útil para ganhar controle da mente e cultivar certas virtudes necessárias. Ouvi seu discurso sobre meditação há alguns dias, mas como sou novato em seus ensinamentos, não fui capaz de entender bem. Mas não vim para falar sobre isso. Vim para falar do tempo – o tempo como um meio para a percepção do Supremo. Até onde vejo, o tempo é necessário para o cultivo daquelas qualidades e sensibilidades da mente essenciais para que a iluminação seja alcançada. É assim, não é?”

Se começar por presumir certas coisas, será possível encontrar a verdade da questão? As conclusões não impedem a clareza de pensamento?

“Sempre dei como certo que o tempo é necessário para atingir a libertação. Isto é o que a maioria dos livros religiosos afirma, e eu nunca questionei. Creio que há indivíduos aqui e ali que alcançaram esse estado de êxtase instantaneamente; mas são poucos, pouquíssimos. O restante de nós deve ter um tempo, curto ou longo, no qual preparar a mente para receber aquele êxtase. Mas compreendo bem o que você quer dizer quando afirma que, para pensar com clareza, a mente deve estar livre de conclusões.”

E é extremamente árduo estar livre delas, não é?

Pois bem, o que entendemos por tempo? Há o tempo do relógio, o tempo como passado, presente e futuro. Há tempo como memória, tempo como distância percorrida daqui até ali e há tempo como resultado, o processo de se tornar algo. Tudo isso é o que entendemos por tempo. E é possível para a mente estar livre do tempo, ir além de suas limitações? Comecemos com o tempo cronológico. É possível estar livre do tempo no sentido real, cronológico?

“Não, se queremos pegar um trem! Para estarmos saudavelmente ativos neste mundo, e para manter algum tipo de ordem, o tempo cronológico é essencial.”

E, então, há tempo como memória, hábito, tradição; e o tempo como esforço de alcançar, de realizar, de se tornar. Obviamente, é preciso tempo para aprender uma profissão, ou adquirir uma habilidade. Mas o tempo também é necessário para a percepção do Supremo?”

“A mim, parece que sim.”

O que é que está alcançando, percebendo?

“Suponho que é o que você chama de ‘eu’.”

Que é um conjunto de memórias e associações, tanto conscientes como inconscientes. É a entidade que goza e sofre, que pratica virtudes, que adquire conhecimento, que acumula experiência, a entidade que conheceu realização e frustração, e é quem pensa que existe a alma, o Atman, o Eu Superior. Essa entidade esse “mim”, que é memória, pensa que alcançará o Supremo ao longo do tempo. Mas seu “Supremo” é algo que ela formulou e, portanto, está também no domínio do tempo, não é?

“Da maneira como você expõe, parece que aquele que faz o esforço, e o objetivo pelo qual ele se esforça, estão igualmente na esfera do tempo.”

Através do tempo você só pode atingir o que o tempo criou. O pensamento é a reação da memória, e o pensamento só pode perceber aquilo que o pensamento concebeu.

“Você está dizendo, senhor, que a mente deve estar livre de memória e do desejo de alcançar, de perceber?”

Logo chegaremos a esse ponto. Se possível, abordemos o problema de modo diferente. Tomemos a violência, por exemplo, e os ideais de não violência. Dizem que o ideal de não violência dissolve a violência. Mas será mesmo? Digamos que sou violento, e meu ideal é ser não violento. Há um hiato, uma lacuna entre o que realmente sou e aquilo que eu deveria ser, o ideal. Cobrir essa distância intermediária leva tempo; o ideal deve ser atingido progressivamente, e durante esse intervalo de abordagem gradual tenho a oportunidade de me abandonar ao prazer da violência. O ideal é o oposto do que sou, e todo oposto contém em si a semente de seu próprio oposto. O ideal é uma projeção do pensamento, que é memória, e a prática do ideal é uma atividade autocentrada, tal como a violência. Ao longo de séculos foi dito – e nós continuamos a repetir – que o tempo é necessário para nos livrarmos da violência; mas isso é um mero hábito, e não há sabedoria por trás disso. Ainda somos violentos. Portanto, o tempo não é o fator da liberdade; o ideal da não violência não liberta a mente da violência. A violência não poderia simplesmente cessar, sem ser amanhã, ou daqui a dez anos?

“Você quer dizer instantaneamente?”

Quando usa essa palavra, você não esta pensando ou sentindo ainda em termos de tempo? A violência não pode apenas cessar? E não em determinado momento?

“Será possível uma coisa dessas?”

Só com a compreensão do tempo. Estamos acostumados com ideais, temos o hábito de resistir, reprimir, sublimar e substituir tudo que envolve esforço e luta ao longo do tempo. A mente pensa em hábitos; é condicionada ao gradualismo, e passou a considerar o tempo como meio de alcançar a libertação da violência. Com o entendimento da falsidade de todo esse processo, a verdade da violência é vista, e este é o fator libertador, e não o ideal ou o tempo.

“Eu acho que compreendo o que você está dizendo, ou melhor, sinto a verdade disso. Mas não é muito difícil libertar a mente do hábito?”

É difícil quando você combate o hábito. Por exemplo, o hábito de fumar. Combater esse hábito é dar-lhe vida. O hábito é mecânico, e resistir só alimenta a máquina, dá mais poder a ela. Mas se você considera a mente e observa a formação de seus hábitos, então, como o entendimento do problema maior, o menor se torna insignificante e se desfaz.

“Por que a mente forma hábitos?”

Esteja cônscio dos mecanismos de sua própria mente e você descobrirá por quê. A mente forma hábitos a fim de estar segura, certa, imperturbável, a fim de ter continuidade. Memória é hábito. Falar um determinado idioma é um processo de memória, hábito; mas o que se expressa na linguagem, uma série de pensamentos e sentimentos, também é habitual, se baseia naquilo que lhe foi dito, na tradição e assim por diante. A mente se move do conhecido para o conhecido, de uma certeza para outra; por isso, nunca há liberdade do conhecido.

Isso nos traz de volta ao ponto em que começamos. Presume-se que o tempo é necessário para a percepção do Supremo. Mas o que o pensamento pode conceber ainda está no campo do tempo. A mente não tem a menor possibilidade de formular o desconhecido. Ela pode especular a respeito disso, mas sua especulação não é o desconhecido.

“Então, o problema se coloca; como podemos perceber o Supremo?”

Não por qualquer método. Praticar um método é cultivar outro conjunto de memórias, vinculado ao tempo; mas a percepção só é possível quando a mente já não está nas amarras do tempo.

“A mente pode se libertar de suas amarras autoproduzidas? Um agente externo não é necessário?”

Quando você busca um agente externo, está de volta a seu condicionamento, em suas conclusões. Nossa única preocupação é com a pergunta: “A mente pode se libertar de suas amarras autoproduzidas?” Todas as outras questões são irrelevantes e impedem que a mente aborde esta pergunta. Não há atenção quando há motivo, quando há a pressão para alcançar, para perceber; ou seja, quando a mente está buscando um resultado, um fim. A mente descobrirá a solução desse problema, não através de argumentos, opiniões convicções ou crenças, mas através da própria intensidade da questão.
 

(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 3 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

O egotismo deteriora a mente

Jiddu Krishnamurti (*)


SERPENTENANDO DE UM LADO ao outro do vale, a trilha passava por uma pequena ponte, a água, de corrente veloz, estava barrenta pelas recentes chuvas. Rumo ao norte, ela passava por suaves encostas até alcançar uma aldeia isolada. Essa aldeia e seus habitantes eram muito pobres. Os cães estavam sujos e latiam à distância, nunca se arriscando a chegar perto, as caudas baixas, as cabeças erguidas, prontos para fugir. Muitas cabras estavam espalhas pela encosta, balindo e comendo os arbustos silvestres. Era uma campina maravilhosa, verde, com montes azulados. O granito que se projetava dos topos dos morros fora lavado pelas chuvas de incontáveis séculos. Esses montes não se elevavam tanto, mas eram muito antigos, e tinham uma beleza fantástica no contraste com o céu azul, aquele estranho encanto do tempo imensurável. Eram como os templos que o homem constrói à sua semelhança, em seu anseio por alcançar o céu. Mas, naquela noite, com o sol poente acima, as colinas pareciam muito próximas. No extremo sul, uma tempestade se formava, e os relâmpagos entre as nuvens davam à terra um atmosfera estranha. A tempestade irromperia durante a noite; mas os montes sobreviveram às tempestades de tempos imemoriais, e sempre estariam lá, para além de toda a labuta e sofrimento do homem.

Os aldeões estavam retornando às suas casas, cansados após um dia de trabalho nos campos. Logo poderíamos ver fumaça subindo de suas cabanas enquanto eles preparavam a refeição da noite, que não seria abundante. Os filhos, à espera de sua refeição, sorriam quando passávamos. Tinham os olhos arregalados e tímidos dos desconhecidos, mas amigáveis. Duas meninas apoiavam bebês em seus quadris enquanto as mães cozinhavam; os bebês escorregavam e logo eram puxados de volta. Embora tivessem 10 ou 12 anos, essas meninas já estavam habituadas a segurá-los; e ambas sorriam. A brisa noturna corria entre as árvores e o gado era recolhido para a noite.

Não havia qualquer outra pessoa naquela trilha, nem mesmo um solitário aldeão. A terra, subitamente, parecia vazia, estranhamente silenciosa. A jovem lua nova acabava de aparecer sobre as escuras colinas. A brisa parou, nenhuma folha se movia; tudo era quieto, e a mente estava completamente só. Não era solitária, isolada, encerrada em seus próprios pensamentos, mas só, intocada, incontaminada. Não era apática e distante, desligada das coisas da Terra. Estava só, e, ainda assim, como tudo; por estar só, tudo era nela. Aquilo que é separado conhece a si mesmo como separado; mas essa solitude não conhecia separação, nenhuma divisão. As árvores, o córrego, o aldeão chamando à distância, todos estavam contidos nela. Não era uma identificação com o homem, com a Terra, pois toda identificação desaparecera por completo. Nessa solitude, cessara o sentido da passagem do tempo.  



Eram três: um pai, seu filho e um amigo. O pai provavelmente estava na casa dos 50 anos, o filho tinha cerca de 30 e o amigo era de idade incerta. Os dois homens mais velhos eram carecas, mas o filho ainda tinha muitos cabelos. Tinha uma cabeça de bonito formato, o nariz um tanto curto e olhos bem separados. Seus lábios eram inquietos, embora ele permanecesse calmamente sentado. O pai se sentou atrás do filho e do amigo, dizendo que tomaria parte na conversa se necessário, mas que, caso contrário, apenas observaria e escutaria. Um pardal chegou à janela aberta e logo partiu novamente, assustado com tantas pessoas na sala. Ele conhecia aquela sala e, muitas vezes, se empoleirava no peitoril, piando baixo, sem medo.

“Embora meu pai talvez não participe da conversa”, o filho começou, “ele deseja estar a par dela, pois o problema preocupa a todos nós. Minha mãe também teria vindo se não estivesse passando tão mal, e está ansiosa para ouvir o que lhe contaremos. Lemos algumas coisas que você disse, e meu pai já compareceu a algumas de suas palestras como ouvinte; mas foi apenas no último ano que de fato me interessei pelo que você diz. Até recentemente, a política absorvia a maior parte de meu interesse e entusiasmo; mas comecei a ver a imaturidade dela. A vida religiosa é apenas para a mente madura, e não para políticos e advogados. Tive bastante sucesso como advogado, mas já não trabalho nessa área, pois quero dedicar os anos restantes de minha vida a algo muitíssimo mais importante e valoroso. Falo também por meu amigo, que quis nos acompanhar quando soube que o visitaríamos. Veja bem, senhor, nosso problema é o fato de que estamos todos ficando velhos. Mesmo eu, apensar de ser relativamente jovem, estou chegando àquele período da vida em que o tempo parece voar, quando um dia parece tão curto e a morte, tão perto. A morte, pelo menos no momento, não é um problema; mas a velhice é.”

O que você entende por velhice? Refere-se ao envelhecimento do organismo físico ou da mente?

“O envelhecimento do corpo é naturalmente inevitável, ele se gasta por uso e doença. Mas a mente precisa se deteriorar e envelhecer?”

Pensar especulativamente é inútil e perda de tempo. A deterioração da mente é uma suposição ou um fato real?

“É um fato senhor. Estou ciente de que minha mente está ficando velha, cansada; ocorre uma lenta deterioração.”

Não será este também um problema entre os jovens, embora eles talvez ainda não estejam cientes disso? Suas mentes já estão confinadas num molde; seu pensamento já está encerrado num estreito padrão. Mas a que você se refere quando diz que sua mente está envelhecendo?

“Ela não é tão maleável, tão alerta, tão sensível como costumava ser. Sua atenção está diminuindo; suas respostas para os muitos desafios da vida partem cada vez mais do arcabouço do passado. Está se deteriorando, funcionando cada vez mais dentro dos limites da sua própria criação.”

Pois bem, o que faz com que a mente se deteriore? É autodefesa e resistência a mudança, não é? Cada um tem um interesse pessoal que vive protegendo – consciente ou inconscientemente –, vigiando, e que não permite que nada venha a perturbar.

“Você quer dizer um interesse pessoal em posses?”

Não só em possuir, mas em relações de qualquer tipo. Nada pode existir em isolamento. A vida é relacionamento; e a mente tem um interesse egotista em sua relação com as pessoas, as ideias e as coisas. Esse egotismo, e a recusa em gerar uma revolução fundamental dentro de si, é o início da deterioração mental. A maioria das mentes é conservadora, resistente à mudança. Mesmo a mente supostamente revolucionária é conservadora, pois, quando alcança seu sucesso revolucionário, também resiste à mudança; a própria revolução se torna seu interesse egotista. Embora ela talvez permita certas modificações nas margens de suas atividades, resiste a todas as mudanças no centro, não importando se é conservadora ou supostamente revolucionária. As circunstâncias podem obrigá-la a ceder, a se adaptar, com dor ou com facilidade, a um padrão diferente; mas o centro continua rijo, e é esse centro que causa a deterioração das mentes.

“O que o senhor chama de centro?”

Você não sabe? Está procurando uma descrição dele?

“Não, senhor. Mas, pela descrição, talvez eu possa tocá-lo, ter uma intuição dele.”

“Senhor”, interveio o pai, “talvez estejamos intelectualmente consciente desse centro, mas, na verdade, a maioria de nós nunca esteve frente a frente com o seu. Eu mesmo li descrições astutas e sutis em vários livros, mas nunca o confrontei realmente; e quando você pergunta se nós o conhecemos, eu posso dizer por mim que não. Conheço apenas as descrições.”

“É de novo nosso interesse egotista”, acrescentou o amigo, “nosso desejo arraigado de segurança, que nos impede de conhecer esses centros. Não conheço meu próprio filho, apesar de ter vivido com ele desde a infância, e conheço menos ainda aquilo que é muito mais próximo do que meu filho. Para conhecê-lo é preciso olhar para ele, observá-lo, ouvi-lo, mas nunca o faço. Estou sempre com pressa; e quando, ocasionalmente, o observo, estou em conflito com ele.”

Estamos falando do envelhecimento, da deterioração da mente. A mente está sempre construindo o padrão de sua própria certeza, a segurança dos seus próprios interesses; as palavras, a forma, a expressão pode variar de tempos em tempos, de cultura a cultura, mas o centro de interesse egotista permanece. É esse centro que faz com que a mente se deteriore, independente do quão alerta e ativa pareça externamente. Esse centro não é um ponto fixo, mas vários pontos contidos na mente, e, portanto, é a própria mente. A melhoria da mente, ou o deslocar-se de um centro a outro, não elimina tais centros; disciplina, repressão ou sublimação de um centro só estabelece outro em seu lugar.

Pois bem, a que nos referimos quando dizemos que estamos vivos?

“Geralmente”, respondeu o filho, “nós nos consideramos vivos quando falamos, quando rimos, quando há sensação, quando há pensamento, atividade, conflito, alegria.”

Então, o que chamamos vida é aceitação ou “revolta” no interior do padrão social, e um movimento dentro da jaula da mente. Nossa vida é uma interminável série de dores e prazeres, medos e frustrações, anseios e apegos; e quando, de fato, consideramos a deterioração dela, e perguntamos se é possível pôr um fim nesse processo, nossa investigação também ocorre dentro da jaula da mente. Isso é viver?

“Temo que não conheçamos outra vida”, disse o pai. “À medida que envelhecemos, os prazeres se reduzem enquanto as tristezas parecem aumentar; e se o indivíduo é minimamente reflexivo, está ciente de que a mente se deteriora com o tempo. O corpo, inevitavelmente, fica velho e conhece a decadência; mas como podemos impedir esse envelhecimento da mente?”

Nós levamos uma vida impensada e, no final, começamos a indagar por que a mente se deteriora e como deter o processo. Certamente, o que importa é como viemos nossos dias, não apenas quando jovens, mas também na meia-idade e durante os anos de declínio. O tipo correto de vida exige de nós muito mais inteligência do que qualquer vocação para ganhar o sustento. Pensar corretamente é fundamental para viver corretamente.

“O que você quer dizer com pensar corretamente?”, perguntou o amigo.

Há uma enorme diferença, sem dúvida, entre pensar corretamente e o pensamento certo. Pensar corretamente é constante percepção; o pensamento certo, por outro lado, é a conformidade a um padrão fixado pela sociedade ou uma reação contra ela. O pensamento certo é estático, é um processo de agrupar certos conceitos, denominados ideais, e segui-los. O pensamento certo, inevitavelmente, constrói a perspectiva autoritária, hierárquica, e engendra a tal respeitabilidade; ao passo que o pensar correto é a percepção de todo o processo de conformidade, imitação, aceitação, revolta. Pensar corretamente, ao contrário do pensamento certo, não é uma coisa a ser alcançada; surge espontaneamente com autoconhecimento, que é a percepção dos mecanismos do “eu”. Pensar corretamente não é algo que possa se aprendido em livros ou com outra pessoa; ele ocorre por intermédio da mente que compreende a si mesma na ação do relacionamento. Mas não pode haver entendimento dessa ação enquanto a mente a justifica ou condena. Portanto, pensar corretamente elimina o conflito e a autocontradição, que são as principais causas da deterioração da mente.

“O conflito não é parte essencial da vida?”, perguntou o filho. “Se não nos esforçássemos, apenas vegetaríamos.”

Achamos que estamos vivos quando nos vemos apanhados no conflito da ambição, quando somos impelidos pela compulsão da inveja, quando o desejo nos empurra à ação; mas tudo isso só leva a maior sofrimento e confusão. O conflito aumenta a atividade autocentrada, ao passo que a compreensão do conflito se dá por meio do pensar correto.

“Infelizmente, esse processo de luta e sofrimento, com certa alegria, é a única vida que conhecemos”, disse o pai. “Temos vislumbres de outro tipo de vida, mas são poucos e esparsos. Ultrapassar essa bagunça e encontrar aquela outra vida é sempre o objeto de nossa busca.”

Buscar aquilo que está além do real é estar preso em ilusão. A existência cotidiana, com suas ambições, invejas e todo o restante, deve ser compreendida; mas compreendê-la exige percepção, pensar corretamente. Não há pensar correto quando o pensamento começa com uma suposição, um preconceito. Partir de uma conclusão ou buscar uma resposta preconcebida põe fim ao pensar correto; assim não há pensar algum. Ou seja, pensar corretamente é a base da virtude.

“Parece-me, colocou o filho, “que pelo menos um dos fatores em todo esse problema da deterioração da mente é a questão da ocupação certa.”

O que você chama de “ocupação certa?”

“Tenho notado, senhor, que aqueles que se tornam inteiramente absorvidos em alguma atividade ou profissão logo se desligam de si mesmos; ficam ocupados demais para pensar em si, o que é uma coia boa.”

Mas tal absorção não é uma fuga de si mesmo? Fugir de si mesmo é uma ocupação errada; é corruptora, gera inimizade, divisão e todo o resto. A ocupação correta vem através do tipo correto de educação e da compreensão de si mesmo. Você nunca reparou que, independentemente da atividade ou profissão, o “eu” usa – consciente ou inconscientemente – como meio para sua própria satisfação, para realizar sua ambição ou para obter sucesso em termos de poder?

“Isso é assim, infelizmente. Parece que usamos tudo o que tocamos para nossa própria promoção.”

É esse interesse egotista, essa constante autopromoção, o que torna a mente mesquinha; e embora sua atividade seja vasta, embora ela esteja ocupada com política, ciência, arte, pesquisa, etc., ocorre um estreitamento do pensar, uma superficialidade que gera deterioração, decadência. Somente quando há compreensão da totalidade da mente, do inconsciente e da consciência, é que existe uma possibilidade de regeneração da mente.

“O materialismo é a maldição da geração moderna”, disse o pai. “Ela é arrastada pelas coisas do mundo, e não reflete seriamente sobre temas sérios.”

Essa geração é como outras gerações. Coisas materiais não são apenas geladeiras, camisas de seda, aviões, aparelhos de televisão e tudo mais; elas incluem ideais, a busca do poder, seja individual ou coletivo, e o desejo de estar seguro, seja neste mundo ou no próximo. Tudo isso corrompe a mente e prova sua decadência. O problema da deterioração deve ser compreendido no começo, na juventude, e não no período de declínio físico. 

“Isso quer dizer que não há esperança para nós?”

De maneira alguma. É mais árduo interromper a deterioração da mente na nossa idade, só isso. Para gerar uma mudança radical em nossos modos de vida, deve haver percepção crescente, e uma grande profundidade de sentimento que é o amor. Com amor, tudo é possível.


(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 3 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sem bondade e amor, não somos educados


Jiddu Krishnamurti (*)



SENTADO NUMA PLATAFORMA ELEVADA ele tocava um instrumento de sete cordas para uma pequena plateia familiar com um tipo de música clássica. Estavam sentados no chão diante dele; de uma posição às suas costas era tocado outro instrumento de apenas quatro cordas. Era um homem jovem, mas mestre total das sete cordas e da complexa música. Ele improvisava antes de cada canção; depois vinha a composição, sobre a qual haveria mais improviso. Jamais ouviríamos alguma daquelas músicas executada duas vezes da mesma maneira. As letras eram fixas, mas dentro de determinada composição havia grande latitude, e o artista podia improvisar segundo o seu coração; e quanto mais variações e combinações, maior o músico. Nas cordas, palavras não eram possíveis; mas todos que lá estavam conheciam as letras e se extasiavam com elas. Com cabeças meneando e mãos gesticulando com graça, eles seguiam o ritmo perfeitamente e o marcava com uma leve palmada na perna. O músico fechara os olhos e se achava completamente absorto em sua liberdade criativa, e na beleza do som; sua mente e seus dedos estavam em perfeita coordenação. E que dedos! Delicados e rápidos, pareciam ter vida própria. Só se tornavam quietos e relaxados ao fim da música, numa nota particular; mas, com incrível rapidez, logo começavam uma nova melodia, em tonalidade distinta. Quase nos hipnotizavam com sua graça e ligeireza de movimento. E a cordas, que sons lindos emitiam! Eram pressionadas pelos dedos da mão esquerda na tensão apropriada, ao passo que a mão direita as dedilhava com facilidade e controle magistral.

A lua era clara do lado de fora, e as sombras escuras estavam imóveis; o rio se via logo após a janela, um fluxo de prata em contraste com as árvores escuras e silenciosas da outra margem. Uma coisa estranha acontecia no espaço que é a mente. Ela vinha observando os movimentos graciosos dos dedos, ouvindo os doces sons, observado as cabeças que se moviam suavemente e as mãos rítmicas da plateia silenciosa. Subitamente, o observador, o escutador, desapareceu; ele não fora induzido à suspensão pelas melódicas cordas, mas estava totalmente ausente. Havia apenas o vasto espaço que é a mente. Todas as coisas da Terra e do homem estavam nela, mas se encontravam em seus limites exteriores, fracas e remotas. Dentro do espaço no qual nada havia, existia um movimento, e o movimento era a quietude. Era um movimento profundo e vasto, sem direção, sem motivo, que começava nos limites externos e avançava com incrível força ao centro – um centro que se encontra em toda parte no interior da quietude, no interior do movimento que é o espaço. Esse centro é total solicitude, incontaminada, incognoscível, uma solidão que não é isolamento, que não tem fim nem começo. É completa em si mesma, não é inventada; os limites externos estão nela, mas não lhe pertencem. Ela está lá, mas não no interior do escopo da mente humana. É o todo, a totalidade, mas não é abordável.



Havia quatro deles, todos rapazes que tinha aproximadamente a mesma idade, entre 16 e 18 anos. Bastante tímidos, eles precisam de persuasão, mas, uma vez que começaram, mal podiam parar, e suas perguntas ansiosas saiam aos borbotões. Dava para notar que eles haviam conversado sobre tais assuntos entre si com antecedência e prepararam perguntas por escrito; mas, após a primeira ou segunda, esqueceram o que haviam redigido, e suas palavras fluíam livremente dos próprios e espontâneos pensamentos. Embora não fossem filhos de pais abastados, eram imaculados e asseados em seu vestir.

“Quando conversou com os estudantes, há dois ou três dias”, começou o mais próximo, “o senhor disse algo sobre como a educação correta é necessária para que sejamos capazes de encarar a vida. Debatemos esse tema entre nós, mas não compreendemos muito bem.”

Que tipo de educação vocês têm agora?

“Ah, estamos na faculdade, e aprendemos as coisas habituais que são necessárias para determinada profissão”, ele respondeu. “Eu serei engenheiro; meus amigos aqui estudam física, literatura e economia, respectivamente. Estamos cursando o plano de estudos prescrito e lendo os livros indicados, e quando temos tempo, lemos um ou outro romance; mas afora os esportes, estudamos a maior parte do tempo.”

Vocês acham que isso é suficiente para terem boa educação para a vida?

“Pelo que o senhor disse, não”, replicou o segundo. “Mas isso é tudo que temos, e achamos que, de modo geral, estamos sendo educados de modo geral.”

Aprender a ler e escrever apenas, cultivar a memória e passar em algumas provas, adquirir certas capacidade ou habilidades para conseguir um emprego – isso é educação?

“Mas isso não é necessário?”

Sim, preparar-se para ter um meio correto de ganhar o sustento é essencial; mas não é o todo da vida. Há também o sexo, a ambição, a inveja, o patriotismo, a violência e muitas outras coisas. Vocês estão sendo educados para encarar essa vasta coisa chamada vida?

“Quem pode nos educar?” perguntou o terceiro. “Nossos mestres e professores parecem indiferentes. Alguns são inteligentes e cultos, mas nenhum dedica qualquer pensamento a esse tipo de coisa. Somos empurrados para a frente, e teremos sorte se conseguirmos obter nossos diplomas; tudo está se tornando bem difícil.”

“Exceto por nossos impulsos sexuais, que são bastante definidos”, disse o primeiro, “não sabemos nada da vida; todo o resto parece vago e remoto. Ouvimos nossos pais reclamando de falta de dinheiro, e percebemos que eles estão presos em certas rotinas pelo resto de seus dias. Assim, quem pode nos ensinar sobre a vida?”

Ninguém pode lhes ensinar, mas vocês podem aprender. Há uma vasta diferença entre aprender e ser ensinado. Aprender acontece ao longo da vida, ao passo que ser ensinado acaba dentro de algumas horas ou anos – e depois, pelo resto de sua vida, vocês repetirão aquilo que lhes foi ensinado, que logo se torna cinzas mortas; e assim a vida, que é algo vivo, torna-se um campo de batalha de esforços vãos. Vocês são atirados na vida sem tranquilidade ou oportunidade para compreendê-la; antes que saibam qualquer coisa sobre a vida, já estão bem no meio dela, casados, amarrados a um emprego, com a sociedade implacavelmente esbravejando a seu redor. Deve-se aprender sobre a vida desde a mais tenra infância, e não no último instante; quando já estão chegando à idade adulta, é quase tarde demais.

Vocês sabem o que é a vida? Ela se estende do momento em que nascem ao momento em que morrem, e talvez além. A vida é um todo vasto e complexo; é como uma casa em que tudo esta acontecendo a um só tempo. Vocês amam e odeiam; são cobiçosos, invejosos e, ao mesmo tempo, sentem que não deveriam ser. São ambiciosos, e há frustração ou sucesso, seguindo o rastro da angústia, do medo e da crueldade; e, cedo ou tarde, chaga o sentimento da futilidade de tudo isso. E há os horrores e a brutalidade da guerra, e a paz pelo terror; há o nacionalismo e a soberania, que apoiam a guerra; há a morte ao fim da estrada da vida, ou em algum ponto no meio dela. Há a busca por Deus, com suas crenças em conflito e as disputas entre religiões organizadas. Há o esforço para conseguir e manter um emprego; há casamento, filhos, doença e o jugo da sociedade e do Estado. A vida é tudo isso, e muito mais; e vocês são atirados nessa bagunça. Em geral, afundam nela, infelizes e perdidos; e se vocês sobrevivem subindo até o alto da escala, ainda são parte da bagunça. Isso é o que chamamos vida; perpétuo esforço e dor, com um pouco de alegria ocasional. Quem lhes ensinará tudo isso? Ou melhor, como vocês aprenderão sobre ela? Mesmo que tenham capacidade e talento, são atormentados por ambição, pelo desejo de fama, com suas frustrações e infelicidades. Tudo isso é vida, não é assim? E ultrapassar tudo isso também é vida.

“Felizmente, ainda sabemos pouquíssimo sobre toda essa luta”, prosseguiu o primeiro, “mas o que o senhor menciona já está potencialmente em nós. Eu quero ser um engenheiro famoso, quero vencer todos os outros; portanto, tenho de trabalhar duro e conhecer as pessoas certas; preciso planejar, calcular o futuro. Devo abrir meu caminho na vida.”

Aí está. Todos dizem que devem abrir seu caminho pela vida; cada um por si, seja em nome dos negócios, da religião ou do país. Você quer ser famoso, e o mesmo quer o seu vizinho, e o mesmo quer o vizinho dele; e é assim com todos, desde o mais alto ao mais baixo na Terra. Assim, construímos uma sociedade baseada em ambição, inveja e aquisição, em que cada homem é inimigo do outro; e vocês são “educados” para se conformar a essa sociedade em desintegração, para se encaixar em sua estrutura perversa.

“Mas o que podemos fazer?” perguntou o segundo. “Acho que devemos nos conformar à sociedade ou ser destruídos. Existe alguma saída para isso, senhor?”

No presente, vocês são supostamente educados para se encaixar nessa sociedade; suas capacidades são desenvolvidas para ganhar o sustento dentro desse padrão. Seus pais, os educadores, o governo, todos estão preocupados com sua eficiência e segurança financeira, não estão?

“Não sei do governo, senhor”, comentou o quarto, “mas nossos pais gastam o dinheiro arduamente ganho para permitir que tenhamos um diploma universitário, para que possamos obter uma forma de sustento. Eles nos amam.”

Amam mesmo? Vejamos. O governo deseja que vocês sejam eficientes burocratas para dirigir o Estado, bons trabalhadores industriais para manter a economia e soldados capazes de matar “o inimigo”. Não é assim?

“Suponho que o governo queira isso. Mas nossos pais são mais bondosos; eles pensam em nosso bem-estar e querem que sejamos bons cidadãos.”

Sim, eles querem que vocês sejam “bons cidadãos”, o que significa ser respeitavelmente ambicioso, perpetuamente acumulador e participante da crueldade socialmente aceita que se chama competição, para que eles possam estar seguros. Isso é o que constitui o assim chamado bom cidadão; mas será de fato bom, ou algo muito maléfico?  Vocês dizem que seus pais os amam; mas será mesmo? Não estou sendo cínico. O amor é uma coisa extraordinária; sem ele a vida é estéril. Vocês podem ter muitas posses e ocupar o trono do poder, mas, sem a beleza e a grandeza do amor, a vida logo se torna infelicidade e confusão. Amor indicaria que aqueles que são amados recebem total liberdade para crescer em sua plenitude, para ser algo maior do que meras máquinas sociais, não é? O amor não obriga, nem abertamente nem por ameaças sutis de deveres e responsabilidades. Onde há qualquer forma de coerção ou uso de autoridade, não há amor.

“Não acho que este seja o tipo exato de amor de que meu amigo estava falando”, disse o terceiro. “Nossos pais nos amam, mas não dessa maneira. Conheço um garoto que quer ser artista, mas o pai quer que ele seja um homem de negócios e ameaça abandoná-lo se o filho não cumprir esse dever.”

O que os pais chamam de dever não é amor, é uma forma de coerção; e a sociedade apoiará os pais, pois o que eles estão fazendo é muito respeitável. Os pais estão ansiosos para que o menino encontre um emprego seguro e ganhe algum dinheiro; mas, com uma população tão enorme, há mil candidatos para cada emprego, e os pais acham que o menino jamais ganharia seu sustento com arte; portanto tentam forçá-lo a abandonar o que veem como um capricho tolo. Consideram uma necessidade que ele se conforme à sociedade, que seja respeitável e seguro. Isso é o chamam de amor. Mas será? Ou é medo, coberto pela palavra “amor”?

“Quando você coloca dessa maneira, não sei o que dizer”, replicou o terceiro.

Existe alguma outra maneira de colocar? O que acabou de ser dito pode ser desagradável, mas é um fato. A chamada educação que vocês têm agora, obviamente, não os ajuda a encarar esse vasto complexo da vida; vocês chegam despreparados e são engolidos por ele.

“Mas quem pode nos educar para compreender a vida? Não temos tais mestres, senhor.”

O educador também deve ser educado. Os mais velhos dizem que vocês, a próxima geração, devem criar um mundo diferente, mas eles não acreditam nisso, de modo algum. Pelo contrário, com muito pensamento e cuidado, eles se dedicam a “educá-los” a se conformarem ao velho padrão, com alguma modificação. Embora digam coisas muito diferentes, os professores e pais, apoiados pelo governo e pela sociedade em geral, garantem que vocês sejam treinados de modo que se conformem à tradição e aceitem a ambição e a inveja como o modo natural de vida. Não estão minimamente preocupados com um novo modo de vida, e é por isso que o próprio educador não está sendo corretamente educado. A geração mais velha criou esse mundo de guerra, este mundo de antagonismo e divisão entre homem e homem, e a nova geração segue aplicadamente em seus passos.

“Mas nós queremos ser educados corretamente, senhor. O que podemos fazer?”

Antes de tudo vejam, claramente um fato simples: que nem o governo, nem seus presentes professores, nem seus pais se interessam por educá-los corretamente; se fosse o caso, o mundo seria completamente diferente, não haveria guerra. Assim, se vocês querem ser corretamente educados, terão de fazê-los sozinhos; e quando forem adultos, vocês se certificarão de que seus próprios filhos sejam corretamente educados.

“Mas como podemos nos educar corretamente? Precisamos de alguém para nos ensinar.”

Vocês têm professores para instruí-los em matemática, literatura e outras coisas, mas a educação é algo mais profundo e amplo que o mero acúmulo de informações. Educação é o cultivo da mente de modo que a ação não seja autocentrada; é aprender ao longo da vida a derrubar as paredes que a mente constrói para estar segura, e de onde surge o medo com todas as suas complexidades. Para serem corretamente educados, vocês têm de estudar muito e não ter preguiça. Sejam bons em jogos, não para vencer o outro, mas para se divertir. Comam a comida certa, e mantenham-se fisicamente saudáveis. Deixem que sua mente esteja alerta e capaz de lidar com os problemas da vida, não como hindu, comunista ou cristão, mas como ser humano. Para serem corretamente educados, vocês devem compreender a si mesmos; têm de seguir aprendendo sobre si mesmo. Quando param de aprender, a vida se torna feia e infeliz. Sem bondade e amor não somos corretamente educados.  


(*)   Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver.  Breves textos – Volume 3 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012