terça-feira, 10 de julho de 2012

“Por que você dissolveu a Ordem da Estrela?”



Jiddu Krishnamurti (*)

 . . .

Ele era um homem jovem, acabara de sair da faculdade e era entusiasmado. Movido pelo desejo de fazer o bem, recentemente aderira a um movimento no sentido de ser mais eficaz, e gostaria de dedicar  toda a vida a ele; mas, infelizmente, seu pai era inválido, e ele tinha de sustentar os progenitores. Ele percebia os inconvenientes do movimento, como seus méritos, mas o bem compensava o mal. Não era casado, disse, e nunca o seria. Seu sorriso era amigável, e ele estava ansioso por se expressar.

“Outro dia, eu estava presente em sua palestra, na qual você disse que a verdade não pode se organizada, e que nenhuma organização pode levar alguém a ela. O senhor foi muito definitivo a esse respeito, mas sua explicação não foi totalmente satisfatória para mim, e quero debater esse tema. Sei que você foi líder de uma grande organização no passado, a Ordem da Estrela, que o senhor dissolveu, e, se me permite perguntar, isso correu por um capricho pessoal ou foi motivado por algum princípio?”

            Nenhum dos dois. Se existe uma causa para a ação, há ação? Se você renuncia por conta de um princípio, uma ideia, uma conclusão, há renuncia? Se você abandona algo em nome de algo maior, ou por alguma pessoa, isso significa, de fato, abandonar?

“A razão não desempenha um papel relevante na renuncia; é isso que quer dizer?”

A razão pode levar alguém a se comportar desta ou daquela maneira; mas o que é concebido pela razão pode ser desfeito pela razão. Se ela é o critério da ação, a mente nunca pode estar livre para agir. A razão, não importa qual sutil e lógica, é um processo de pensar, e o pensar é sempre influenciado, condicionado por fantasia pessoal, pelo desejo ou uma ideia, uma conclusão, seja imposta ou autoinduzida.

“Se não foi razão, princípio ou desejo pessoal o que o levou a fazer isso, então foi algo fora de si mesmo, um agente superior ou divino?”

Não. Mas talvez fique claro se pudermos abordar o assunto de maneira diferente. Qual é o seu problema?

“Você disse que a verdade não pode ser organizada e que nenhuma organização pode levar o homem à verdade. A organização a que pertenço sustenta que o homem pode ser levado à verdade por meio de determinados princípios de ação, do esforço pessoal correto, de se entregar às boas obras e assim por diante. Meu problema é o seguinte: será que estou no caminho certo?”

Você acha que há um caminho par a verdade?

“Se não achasse isso, não pertenceria a essa organização. Segundo nossos lideres, a organização se baseia na verdade; é dedicada ao bem-estar de todos, e ajudará tanto o aldeão quanto as pessoas altamente educadas e que detêm cargos de responsabilidade. No entanto, quando ouvi sua palestra outro dia, fiquei perturbado, e por isso aproveitei a primeira oportunidade de visitá-lo. Espero que você compreenda minha dificuldade.”

Vamos abordar o assunto devagar, passo a passo. Em primeiro lugar, há um caminho para a verdade? Um caminho implica avançar de um ponto fixo a outro. Como entidade viva, você está mudando, reformulando, forçando, questionando a si próprio, na esperança de encontrar uma verdade permanente, imutável. Não é mesmo?

“Sim. Quero encontrar a verdade, ou Deus, a fim de fazer o bem”, ele respondeu com entusiasmo.

É certo que não há nada permanente em você além do que você considera como tal; mas seu pensamento também é transitório, não é? E a verdade teria um lugar fixo, sem qualquer movimento?

“Eu não sei. Vemos tanta pobreza, tanta infelicidade e confusão no mundo, e com nosso desejo de fazer o bem, aceitamos um líder ou uma filosofia que ofereça alguma esperança. De outra forma, a vida seria terrível.”

Todas as pessoas decentes querem fazer o bem, mas a maioria de nós não reflete sobre o problema. Dizemos que não podemos pensar sozinhos ou que os lideres sabem mais. Mas será certo? Veja os vários lideres políticos, os chamados líderes religiosos e os lideres da reforma econômica e social. Todos têm esquemas, cada um dizendo que o seu é caminho para a salvação, para erradicação da pobreza e assim por diante; e indivíduos como você que querem agir em face de toda essa infelicidade e caos, são apanhados na teia da propaganda e das afirmações dogmáticas. Você não reparou que a própria ação gera muito mais infelicidade e caos?

A verdade não tem domicílio fixo; é algo vivo, mais desperto, mais dinâmico do que tudo que a mente possa pensar, portanto, não pode haver caminho para ela.

“Acho que compreendo isso, senhor. Mas você é contra todas as organizações?”

Obviamente, seria tolo ser “contra” os correios ou outras organizações similares. Mas você não está se referindo a essas organizações, não é?

“Não. Estou falando de Igrejas, grupos espirituais, sociedades religiosas e por aí vai. A organização à qual pertenço abraça todas as religiões, e qualquer um que esteja preocupado com melhora física e espiritual do homem pode ser um membro. Evidentemente, essas organizações sempre têm seus líderes, que dizem conhecer a verdade, ou que levam uma vida santificada.”

A verdade pode ser organizada, com um presidente e um secretário ou com altos sacerdotes e intérpretes?

“Se compreendi a questão corretamente, parece que não. Então por que esses líderes santificados dizem que suas organizações são necessárias?”

Não importa o que dizem os líderes, pois eles são tão cegos quanto seus seguidores; caso contrário, não seriam líderes. O que você acha, independente de seus lideres? Essas organizações são necessárias?

“Talvez não sejam estritamente necessárias, mas realmente encontro conforto ao pertencer a uma dessas organizações, e trabalhar com outras pessoas com a mesma visão.”

Exato. E há também um sentimento de segurança em ser orientado sobre o que fazer, não? O líder sabe, e você, o seguidor, não sabe; assim, sob a direção dele, você sente que pode fazer a coisa certa. Ter uma autoridade sobre a sua pessoa, alguém para guiá-lo, é muito reconfortante, especialmente quando em todos os lados há tanto caos e infelicidade. É por isso que você se torna não exatamente um escravo, mas um seguidor, executando o plano estabelecido pelo líder. É você, o ser humano, que causa toda essa bagunça no mundo, mas você não é importante; só ao plano dão importância. Mas o plano é mecânico, precisa de seres humanos para colocá-lo em operação; portanto, você se torna útil ao plano.

E existem os sacerdotes, com sua autoridade divina para salvar a alma, e desde a infância você é condicionado por eles a pensar de certa maneira. Novamente, você não é importante como ser humano; não é sua liberdade, seu amor, o que interessa, mas sua alma, que deve ser salva de acordo com os dogmas de determinada religião ou seita.

“Eu vejo a verdade disso, realmente vejo, como você explica. Então, o que é importante em meio a toda essa confusão?”

O importante é livrar sua mente de inveja, ódio e violência; e para isso você não precisa de uma organização, precisa? As chamadas organizações religiosas jamais libertam a mente; só fazem com que ela se conforme a determinada religião ou crença.

“Eu preciso mudar; deve haver amor em mim, tenho de deixar de ser invejoso, e então agirei sempre corretamente. Não precisarei que alguém me diga qual é a ação correta. Vejo, agora, que essa é a única coisa que importa, e não a que organização pertenço.”

Podemos seguir o que, em geral, é considerado uma ação correta, ou receber instruções sobre o que é a ação correta; mas isso não gera amor, gera?

“Não, evidentemente que não; assim estamos apenas seguindo um padrão criado pela mente. Mas uma vez, vejo com muita clareza, senhor, e agora entendo por que você dissolveu a organização da qual era líder. Um indivíduo deve ser uma luz em si mesmo. Seguir a luz do outro nos leva à escuridão.”


(*) Parte de um dos textos de Jiddu Krishnamurti no livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 3. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cerimônias e Conversão



Jiddu Krishinamurti *

           “Em um grande cercado, entre muitas árvores, havia uma igreja. As pessoas, negras e brancas estavam entrando. Dentro havia mais luz do que nas igrejas européias, mas as disposições eram as mesmas. A cerimônia estava em andamento e havia beleza. Quando terminou, pouquíssimos negros falaram com os brancos ou os brancos com os negros, e todos nós tomamos nossos diferentes caminhos.

Em um outro continente havia um templo, e eles cantavam um hino em sânscrito; era realizada a Puja, uma cerimônia hindu. A congregação era de outro padrão cultual. A tonalidade das palavras sânscritas é muito e poderosa; tem estranhos peso e profundidade.

Você pode ser convertido de uma crença para outra, de um dogma para outro, mas não pode ser convertido ao entendimento da realidade. Crença não é realidade. Você pode mudar sua mente, sua opinião, mas a verdade ou Deus não é uma convicção: é uma experiência que não está baseada em crenças ou dogmas nem em qualquer experiência anterior. Se você tiver uma experiência nascida da crença, sua experiência será a reação condicionada àquela crença. Se você tiver uma experiências inesperada, espontaneamente, e criar mais experiência sobre a primeira, a experiência será simplesmente a continuação da memória reagindo ao contato com o presente. A memória é sempre morta, revivendo apenas em contato com o presente vivo.

Conversão é a mudança de uma crença ou de um dogma para outro, de uma cerimônia para outra mais gratificante, mas não abre a porta para a realidade. Pelo contrário, a gratificação é um estorvo à realidade. E, ainda assim, é o que as religiões organizadas e os grupos religiosos estão tentando fazer: convertê-lo a um dogma, uma superstição ou uma esperança mais ou menos razoável. Eles lhe oferecem uma cela melhor. Pode ser confortável ou não dependendo de seu temperamento, mas, de qualquer forma, é uma prisão.

Religiosa e politicamente, em níveis diferentes de cultura, essa conversão está acontecendo o tempo todo. As organizações com seus líderes fortalecem-se ao manter os homens nos padrões ideológicos que oferecem, sejam religiosos ou econômicos. Nesse processo se encontra a exploração mútua. A verdade está fora de todos os padrões, medos e esperanças. Se você descobrisse a suprema felicidade da verdade, teria de romper com todas as cerimônias e padrões ideológicos.

A mente encontra segurança e força em padrões religiosos e políticos, e é isso que dá energia às organizações. Existem sempre os conservadores e os novos recrutas. Estes mantêm as organizações funcionando, com seus investimentos e propriedades, e o poder e o prestígio das organizações atraem aqueles que cultuam o sucesso a sabedoria mundanos. Quando a mente descobre que os velhos padrões não são mais satisfatórios e estimulantes, ela se converte as outras crenças e dogmas mais confortadores e fortalecedores. Portanto a mente é o produto do ambiente, recriando e sustentando a si mesma em sensações e identificações; e é por isso que a mente se aferra a códigos de conduta, padrões de pensamento etc. Visto que a mente é o resultado do passado, ela jamais consegue descobrir a verdade ou permitir que a verdade tome forma. Ao prender-se a organizações, ela descarta a busca pela verdade.

Obviamente, os rituais oferecem aos participantes uma atmosfera na qual se sentem bem. Tantos os rituais coletivos quanto os individuais dão certa tranquilidade à mente; eles oferecem um contraste vital com a enfadonha vida cotidiana. Há alguma beleza e metodicidade nas cerimônias, mas elas são, fundamentalmente, estimulantes; e, assim como todos os estimulantes, logo entorpecem a mente e o coração. Os rituais tornam-se vícios; tornam-se uma necessidade, e o indivíduo não consegue passar sem eles. Essa necessidade é considerada uma renovação espiritual, uma concentração de força para enfrentar a vida, uma meditação semanal ou diária e assim por diante; mas, se examinar mais de perto esse processo, verá que os rituais são vãs repetições que oferecem uma fuga maravilhosa e respeitável do autoconhecimento. Sem autoconhecimento, a ação tem muito pouca importância.

A repetição de cânticos, de palavras e frases faz a mente adormecer, embora seja estimulante o bastante durante aquele momento. Nesse estado sonolento, experiências realmente ocorrem, mas são projetadas. Embora gratificantes, essas experiências são ilusórias. A experiência da realidade não acontece por meio de repetições, por meio de práticas. A verdade não é um fim, um resultado, um objetivo, ela não pode ser convidada, pois não é uma coisa da mente.”

* Do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007  

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Intolerância religiosa, por Drauzio Varella


O Dr. Drauzio Varella, no texto intitulado “A Intolerância religiosa”, nos leva a refletir sobre as crenças que substanciam nossa cosmovisão, especialmente, quando confrontadas com as crenças alheias.
O texto foi publicado em http://drauziovarella.com.br/wiki-saude/intolerancia-religiosa/ e por julgá-lo relevante a referida reflexão é que o reproduzo abaixo.

“A Intolerância Religiosa
Drauzio Varella


Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais.

Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos à interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido. Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão, devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada, quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta, ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome d’Ele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV, que tomam dinheiro dos pobres, são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares, porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus seriam considerados mensageiros de satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes nos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.

O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade — quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Insistindo na travessia para “a outra margem do rio”


Roberto Lira
O blog Ilha de Pala nasceu com o propósito de Compartilhar Idéias, Reflexões e Utopias das nossas vivencias cotidianas. A falta de regularidade nas nossas postagens, por vezes, leva os poucos visitantes do Ilha a supor que o blog submergiu ou que seu atestado de óbito apresenta causa mortis indeterminada. Mais de uma vez, jocosos visitadores nos advertiram do risco de morte iminente que o blog apresenta, com a sinalização de um in memoriam. Aproveitamos a oportunidade para nos desculpar e justificar a ciclotimia das postagens. A causa dessa ciclotimia não é nenhuma psicose maníaco-depressiva, ela se origina na indescritível lerdeza do nosso viver. Asseguramos aos queridos visitantes que, mesmo quando nossas escrevinhações se encontram em hibernação, nosso prélio interior continua e a intenção de compartilhar nossas observações e compreensões idem.
O nosso viver diário decorre, na maior parte do tempo, em minha residência ou no vizinho Praia Clube. Para um analogismo das nossas vivências com o tema em reflexão, Insistindo na travessia para “a outra margem do rio”, vou situar o complexo desportivo/recreativo desse aprazível clube. O Praia Clube tem suas instalações distribuídas ao largo das duas margens de um trecho do rio Uberabinha, que passa dentro da cidade de Uberlândia. Nas  saudáveis e prazerosas atividades realizadas diariamente no referido clube, utilizamos as instalações de um ou do outro lado do rio, dependendo da ação escolhida para determinado momento. Para nos transladarmos de uma margem para a outra do rio podemos escolher uma das três pitorescas pontes disponíveis no interior do clube.
“A outra margem do rio” sobre a qual queremos refletir pode ser vislumbrada, como um lugar onde a felicidade é plena e permanente. Talvez este seja o lugar onde o Eu, o verdadeiro Ser, habita e transita com desenvoltura. Poderiamos, ainda, dizer que é lá a nossa eterna e verdadeira morada. Nosso interesse em tentar alcançar esse lugar, já foi manifestado em uma postagem anterior (Aqui). Nela, mencionamos que tivemos tentativas frustradas, mas, por outro lado, fomos agraciados com promissores insights que podem ser utilizados como “ponte” para alcançarmos aquela almejada “margem”.
Entre as muitas questões suscitadas na presente reflexão destacamos as seguintes: Dispomos de “pontes”, previamente construídas, para alcançarmos “a outra margem do rio”? Ou seja, dispomos de conhecimentos, estabelecidos, que possam nos servir de “ponte” para essa mudança psicológica? Os conhecimentos/ensinamentos adquiridos em livros e/ou textos, sagrados ou não, podem realmente servir como “pontes” para essa travessia? Ou, seriam esses conhecimentos/ensinamentos apenas mapas a nos indicar alguma das possibilidades desse translado?
Mesmo sem uma resposta cabal para as questões acima destacadas, continuamos perseverando em nossa aspiração de atingir “a outra margem do rio”. Nosso esforço vai continuar sendo no sentido de descobrir “pontes”; explorar “trilhas”; encontrar “barcos”, ou mesmo “botes”; até “tirolesas” serão bem-vindas, desde que tenham o poder de nos conduzir para aquela “margem”. Não temos preconceitos quanto ao tipo ou as origens do “veículo” a ser utilizado para a travessia. Nossa maior observação é que a condução desse processo é individual e indelegável, qualquer que seja o “veículo” utilizado. Disso estamos convicto.  
Se um dia realizamos esse almejado objetivo, entendemos que o “veículo” utilizado poderá ser descartado. Pois é lá,  “na outra margem do rio”, onde surgem todos os verdadeiros “veículos” e, também, é lá que seus diversos tipos  são renovados, a cada instante.
            Ao prosseguirmos com nosso compromisso em tentar realizar o processo dessa travessia, na medida do possível e do cabível, escrevinharemos sobre as compreensões decorrentes desse processo. 
             Atenção! Aqui e agora!


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Renovando idéias numa breve visita a “A Ilha” de Aldous Huxley

Roberto Lira

Vez por outra, nos deparamos com fatos noticiados sobre o comportamento humano, que alimentam os mais variados comentários tanto nas mídias como nas conversas particulares. Nos últimos dias, dois desses fatos foram profusamente discutidos: o polêmico caso do suposto estupro no programa “BBB 12”, envolvendo os personagens Daniel e Monique; e o caso, não menos polêmico, do cartunista Laerte (bissexual assumido), que como crossdresser foi impedido de freqüentar um banheiro feminino numa pizzaria em São Paulo.

Esta escrevinhação não tem por objetivo discutir as razões dos personagens envolvidos nos casos acima referidos, nem tomar partido em relação as suas condutas. Pensamos que qualquer posicionamento em relação às questões suscitadas, certamente não nos guiará para a construção de uma sociedade em harmonia com o Pensamento do Criador. Assim, deixamos de lado os lamentáveis exemplos acima referidos e voltaremos nossa atenção para a busca de exemplos que possam nos inspirar na renovação de nossas condutas. Já que estas, em última análise, são o elemento constitutivo da nossa sociedade.

A tônica da sociedade contemporânea tem sido a ignorância transformada em dogma político, religioso ou interesse mercantilista. Nossa moralidade é baseada em preconceitos questionáveis, quase sempre, decorrentes de crenças fundamentalistas, em detrimento de Valores Universais.  A massificação consumista que vivemos nos faz crer que possuir dois aparelhos de TV, ou dois carros, nos faz duas vezes mais felizes do que se tivéssemos um só. A Lei do Gerson é o programa que norteia nossa ética. O desrespeito aos meios ambientes de todas as espécies, inclusive a humana, é calamitoso. Et cetera... Et cetera... Et cetera...  Frente a isso, pensamos ser meritório refletimos sobre o destino da sociedade que queremos.

Retornar “A Ilha” de Huxley, com o intuito de extrair compreensões para renovar o viver diário, para muitos pode ser uma inglória “viagem” mental. Não consentimos com esse pensamento. Para nós, as compreensões extraídas com discernimento da paradisíaca Ilha de Pala podem tornar-se matéria prima primordial para uma saudável renovação de nossas condutas, no aqui e no agora.

Ao nos deparamos com os relatos sobre a sociedade palanesa, podemos observar uma civilização muito distinta da que ora vivenciamos. Já que a nossa sociedade não nos tem oferecido exemplos a serem enaltecidos. Talvez, se pinçarmos com o devido cuidado, alguns exemplos da vida na Ilha de Pala possam servir de inspiração para uma renovação benfazeja de nossas condutas. É claro que tais exemplos, prudentemente selecionados, além de coerentes, devem estar em consonância com a própria consciência.  

            A sociedade palanesa se beneficia de uma educação muito diferente na nossa. Com um educação baseada no perfeito equilíbrio entre ciência e espiritualismo, todos os temas são tratados com naturalidade e em harmonia com a real natureza humana. Os palaneses sabem que a Sabedoria não faz insanas separações, destituídas de sentido, como as entre o homem e a natureza, entre a natureza e Deus e entre a carne e o espírito. A vida é um todo indivisível. Em Pala, como a religião não é institucionalizada, o que se evidencia é a experiência real, portanto, desconsidera-se a crença em dogmas improváveis e as emoções decorrentes dessa crença. Para os palaneses não há “povo eleito” nem “terras santas”. Assim, ficam salvos das pragas do papismo e das revivificações fundamentalistas. Na Ilha de Pala, sentimentos de superioridade ou reivindicação de quaisquer privilégios são considerados incompatíveis com a moralidade, com a integridade humana e com um sistema social condigno. O que a sociedade palanesa valoriza é a liberdade e a realização plena das potencialidades de seus habitantes. Resumindo, a modesta ambição dos palaneses é viver como seres humanos “integrais”, em perfeita harmonia com a vida que os cerca, desse modo, tornam-se adultos plenamente realizados.

Extrair alguns exemplos da feliz sociedade palanesa, para inspirarmo-nos e incorporarmos em nosso cotidiano, pode não ser coisa fácil.  São poucas as possibilidades de que isso possa acontecer, mas pode ser que aconteça.

Atenção! Aqui e agora!

Aos interessados, o “visto” para uma visita a feliz Ilha de Pala está disponível neste weblog. É só acessar no link Livros: Aldous Huxley - A Ilha.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Polêmicas construtivas 2


Roberto Lira

No embalado do texto de Hélio Schwartsman (reproduzido neste blog), que trata da polêmica entre entre Ives Gandra e Daniel Sottomaior sobre o fundamentalismo, recebi ontem um texto do Contardo Galligaris, enviado por um blogueiro compartilhador – Alam Kenji Minowa. Esse texto do Galligaris, “Sentidos do fundamentalismo”, dá continuidade a polêmica em questão.

Galligaris além de apresentar uma definição do que é fundamentalismo, com a qual eu consinto em todos os aspectos, faz referência a uma solicitação feita por seu pai em relação à morte, a qual eu, também, já fiz aos meus filhos acrescentando que não me enterrem e sim me cremem. Mesmo não sendo fundamentalista no geral, no caso particular da referida solicitação, fundamentalista eu sou.

Mantendo o propósito do blog que é o de Compartilhar Idéias, Reflexões e Utopias, especialmente, quando ao meu juízo elas contribuem para a superação humana é que reproduzo abaixo o texto do Calligaris. Por ora, sem maiores análises.

“CONTARDO CALLIGARIS

Sentidos do fundamentalismo




O fundamentalista não consegue praticar normas que ele prega e sente inveja de quem não as respeita


Eis uma (pequena) contribuição ao debate sobre fundamentalismo que se deu, recentemente, na Folha (artigos de Ives Gandra da Silva Martins, 24/11, e Daniel Sottomaior, 8/12; cartas dos leitores Antônio Ilário Felici e Francisco Guimarães, 9/12; coluna de Hélio Schwartsman, 10/12).

Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela.

Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão; se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo.

Meu pai era convencido de que existem mistérios para os quais qualquer resposta seria desonesta.

Nesse seu agnosticismo, ele era fundamentalista no sentido que acabo de definir. Um dia, quando meu irmão e eu éramos já adultos, ele quis que prometêssemos que, se ele, na agonia, pedisse a assistência de um padre, nós lhe negaríamos esse recurso, considerando que sua sanidade mental teria se perdido no aperto acovardado da última hora.

Prometemos. Por sorte, ele morreu sem pedir conforto religioso algum. Se ele tivesse pedido, não sei se eu teria mantido minha promessa; à diferença dele, eu não sou fundamentalista: decido e escolho segundo as circunstâncias e não por princípio.

Mesmo assim, tenho respeito, se não simpatia, por esse tipo de fundamentalismo. E acho que todos deveriam poder levar (e viver) suas convicções a sério, se assim quiserem – claro, nos limites básicos impostos pelos códigos Penal e Civil, que regem a convivência social.

Mas tenho pressa de chegar ao outro sentido, pelo qual fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua fé sejam observados por todos – ou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira.

Esse tipo de fundamentalista, seja qual for sua convicção, religiosa ou ateia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espírito "missionário" é um corolário de sua fé e uma prova de sua generosidade: "Forçando o outro a se converter, eu só quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele".

Com esse tipo de fundamentalista, eu implico, por duas razões.

Primeiro, detesto que alguém esconda sua violência atrás de pretensas boas intenções e não gosto da idéia de que um outro imagine saber o que é "bom" para mim.

Segundo, não acredito que alguém possa querer converter os outros à força por generosidade.

Há duas razões pelas quais, em regra, alguém quer impor as normas de suas convicções aos outros, e ambas são péssimas:

1) Ele precisa que ao menos os outros respeitem essas normas, que ele preza, mas não consegue impor a si mesmo -ou seja, incapaz de obedecer a seus próprios princípios, ele quer validá-los pela obediência forçada dos outros;

2) Ele quer se livrar da inveja que ele sente da vida dos que não respeitam essas mesmas normas (para assinalar a componente de inveja, presente nos moralistas, Alfred Kinsey, o grande sociólogo e sexólogo, dizia que "ninfômana" e "tarado" são os que conseguem ter uma vida sexual mais intensa do que a da gente).

Em suma, os motores de muitos fundamentalismos missionários são a incapacidade de viver à altura dos preceitos pregados e a inveja de quem não respeita esses preceitos.

Por isso, no debate (ou na gritaria) entre homossexuais e evangélicos, por exemplo, nem preciso decidir se gosto mais de Oscar Wilde ou do apóstolo Paulo.

Pois, bem antes e independentemente disso, a oposição relevante é a seguinte: os homossexuais não pretendem que os evangélicos passem todos a transar com parceiros do mesmo sexo ou a frequentar baladas gays, enquanto os evangélicos pretendem que os homossexuais se convertam e renunciem a seu desejo (transformado em "pecado") – ou, no mínimo, que eles sejam impedidos de viver segundo suas próprias disposições e convicções.

Ou seja, para se situar nessa oposição, não é preciso escolher entre as idéias e as práticas das partes, mas entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem.

Assim sendo, como se diz na roleta, "façam suas apostas".”

Eu diria, assim sendo, reflitam e vivam o aqui é o agora!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Polêmicas construtivas

Roberto Lira

No Mural de Recados de um site de minha cidade natal – http://www.bomconselhopapacaca.com.br –, o conterrâneo Ronaldo Dias postou uma mensagem que faz referência a um texto do articulista da Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman, intitulado Fundamentos do Ateísmo. Como gosto de acompanhar polêmicas que envolvem religião e ciência, fui ao texto.
Ao ler o referido texto, talvez, por considerar-me agnóstico, de pronto consenti com a opinião do articulista. Entendendo que os argumentos nele apresentados são construtivos para a superação humana, resolvi compartilhá-lo com os possíveis leitores deste blog. O texto pode ser visto em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/1019342-fundamentos-do-ateismo.shtml.
Com a palavra Helio Schwartsman:
Fundamentos do ateísmo
SÃO PAULO – Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.
Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.
Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?
Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas – e inconsistentes de uma fé para outra –, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.
Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.
Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar – e de modificar.
Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.”
Refletir é preciso, aqui e agora!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A corrupção e seus deslindes

Roberto Lira

Nos tempos atuais, a questão da corrupção tem sido a tônica dos noticiários em geral. Observamos, em relação à corrupção, que ela tem se propagado a níveis endêmicos em nossa civilização nos dias de hoje. A corrupção que grassa nos meios políticos e empresariais, quer seja em regimes democráticos ou ditatoriais, é alarmante e tem chamado a atenção da maioria de nós seres humanos. A “lei do Gerson”, onde todos querem levar vantagem em tudo é a bola da vez, ou melhor, é a grande jogada da vez.

Muito tem se discutido sobre os aspectos mais degradantes dessa nefasta manifestação da conduta humana, mas pouco se tem refletido sobre aspectos sutis dos atos de corrupção. Estes originados em nosso entendimento, especialmente, pelo condicionamento que determinadas crenças nos incutem. Salientamos que nesta reflexão, não é nossa intenção estabelecer nenhum preconceito sobre a conduta de quem quer que seja. Pretendemos apenas, mantendo a parte os procedimentos corruptos inquestionavelmente indecentes e inaceitáveis, dirigir nossa atenção para aquelas condutas que, mesmo aparentemente inocentes e/ou inconscientes, podem sutilmente conter o germe da corrupção. Para melhor delimitar esta reflexão, o termo corrupção deve ser entendido como: ato ou efeito de subornar alguém em causa própria ou alheia, e subornar como: dar ou oferecer algo a fim de conseguir alguma coisa imerecida.

Imaginemos a seguinte situação, corriqueiramente observada na conduta de várias das nossas famílias humanas: um pai zeloso frente à necessidade do filho fazer vestibular ou prestar concurso para conseguir um almejado emprego. Como um bom Cristão, roga a Deus em suas preces e/ou promessas para que Ele faça seu filho ser bem sucedido no seu empreendimento (por vezes, essa solicitação não é feita diretamente a Deus, e sim através de intermediários terrenos ou celestes).

Como “decidirá” Deus – Criador e Gestor das (incorruptíveis) Leis Universais – quem serão os escolhidos?  Serão “escolhidos” aqueles que se apresentam com o handicap das preces e promessas dos pais? Ou essa seleção é feita pelas Leis Universais baseada, exclusivamente, na aptidão intelectiva dos candidatos?

Nesse ato de solicitar a interferência de Deus para beneficiar o querido filho, sem se ater ao merecimento deste em relação aos outros concorrentes, como podemos classificar a conduta desses pais?  Certamente, nesse tipo de solicitação os pais não levam em conta, nas suas preces e promessas, que os merecedores das limitadas vagas em disputa devem ser daqueles que mais se esforçaram em sua capacitação para o vestibular ou concurso e chegaram mais capazes para a disputa, independente de ser seus filhos ou não.

É possível imaginar Deus favorecendo alguém, em atenção às suplicantes preces e mirabolantes promessas de um “humilde servo”?  Onde ficaria a Justiça Divina concedendo “graças” para uns em detrimento de outros para quem não houve rogos, mas que são merecedores do objetivo pretendido, por méritos próprios. A ação de pedir a interseção Divina, ofertando preces e/ou promessas, para que o filho seja favorecido na sua empreitada, não teria o germe da corrupção, mesmo que sutilmente? Ofertas e promessas a Deus para que Ele beneficie os seus ou a si próprio não seria uma tentativa de corrompê-Lo?

Pensamos que há situações em que os rogos a Deus, a Brahma, a Natureza, ou como o quisermos Chamá-lo não abrigariam o germe da corrupção. Por exemplo, entendemos que nas agruras que passamos em determinada doença, as preces dirigidas ao Absoluto para a melhora da saúde não estariam contaminadas pelo germe da corrupção. Desse modo, o beneficio pretendido não traria nenhum prejuízo a terceiros, portanto, compreensivelmente ético. Se, no entanto, estendermos essa reflexão para a tentativa de se conquistar a saúde por meio de promessas,  nesse caso ela (a promessa), ao nosso juízo, não teria a mesma ética da primeira situação. Pois, nos parece que teriam um sentido de “compra” – se eu conseguir isso, prometo te dar aquilo.

A reflexão ora suscitada é deveras delicada e merece todo comedimento.  Nem por isso devemos evitá-la, para não melindrar jovens e/ou adormecidas consciências. Pensamos ser necessário que o assunto corrupção não fique restrito ao lamaçal que grassa nas instituições públicas ou privadas, hoje tão difundido pela mídia ou comentados nos encontros sociais. Faz-se necessário mergulharmos em nosso interior para identificarmos, e se necessário erradicarmos, em nos mesmos, qualquer sinal por mais sutil que seja desse indesejável germe que tanto desqualifica o Ser que se diz humano.

A luta a ser desencadeada, ou melhor, esse “jogo” deve começar no nosso interior.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Da Insatisfação a Felicidade


Roberto Lira

Da Insatisfação a Felicidade” dá titulo a um livro do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti (JK), onde se publica uma série de palestras proferidas na cidade de Bombaim, no ano de 1948.
No início dos anos 80, tivemos oportunidade de ler algumas publicações do Krishnamurti. Desde então, consideramos suas idéias empolgantes, revolucionárias, mas por vezes incompreensíveis. Um belo dia, garimpando na biblioteca da AABB Recife nos deparamos com o livro acima referido, e, a partir dessa leitura muitas das manifestações de JK, até então incompreendidas, foram aclaradas. Procuramos adquirir o livro, mas ele achava-se esgotado. Assim, o exemplar da biblioteca foi xerocopiado e nos serviu de livro de cabeceira por mais de uma década. Depois de um longo período sem manuseá-lo, retomamos a leitura da surrada Xerox. Todo nosso encantamento pelas sábias reflexões que o Krishnamurti nos brinda, ressurgiu a mente de forma muito mais intensa e as compreensões se tornaram ainda mais claras, do que nas pretéritas leituras. Nos últimos tempos, tentamos de novo adquirir a referida publicação, tendo em vista a mesma ter retornado a condição de livro de cabeceira, mas só encontramos um velho exemplar em num sebo na internet, e o valor cobrado julgamos ser extorsivo. Assim, decidimos digitalizar/digitar nossa velha cópia e compartilhá-la com possíveis leitores interessados. Portanto, o PDF do referido livro está disponibilizado no link Livros deste blog.
Krishnamurti pautou toda a sua vida em nortear o ser humano nas questões relativas ao seu viver, encorajando-o a enfrentar os desafios que se apresentam nas relações humanas de forma nova e revolucionária. Segundo ele, a missão que nos cabe é transformar a nós mesmos pelo autoconhecimento. O que significa ficarmos cônscios das nossas ações na vida diária. Nossos pensamentos e sentimentos, que constituem nossa consciência, devem ser observados e examinados passivamente. Isso nos possibilitará afastarmo-nos das danosas “cicatrizes” psicológicas, formadas pela memória. Nessas conferências, os problemas suscitados e analisados pelo conferencista continuam, para nós, atuais e muitos deles agravos.
Até o momento, ninguém nos faz ver de forma tão clara a nossa total responsabilidade nesse processo de autoconhecimento como o Krishnamurti.  Aprendemos com ele a nos livrar da desnecessária dependência de guias, intermediários, ou de instituições organizadas que se propõem a nos religar com a Mente Universal, com a Realidade, com a Verdade, com o Inominável, Deus ou como o quisermos chamá-Lo(a). A partir de suas manifestações, consolidamos a compreensão que o mundo e o indivíduo constituem um processo unitário. O mundo em que vivemos tem nos conduzido a uma Insatisfação generalizada, e com ela vemos surgir em alguns o anelo de transformação que nos traga Felicidade. Estamos convictos que para irmos “Da Insatisfação a Felicidade” é necessário uma transformação radical, e esta certamente começa pela transformação de nós mesmos. JK nos adverte que uma real transformação psicológica é atemporal. Ela não ocorre no devir, no vir a ser, ela pode e deve ser imediata, momento a momento.
Reitero o convite para a leitura do livro de Krishnamurti ora disponibilizado, parodiando o poeta: Transcender é preciso, viver (nas condições que geralmente vivemos) não é preciso.

domingo, 4 de setembro de 2011

Hábitos alimentares


Roberto Lira

         A opção pelo vegetarianismo pode estar vinculada a vários razões. Para alguns, motivos filosóficos que incluem ética, religião, meio ambiente, etc. Para outros, as questões fisiológicas relacionadas à saúde ou a atração/aversão gustativa pode ser o motivo. A adesão a esse tipo de regime alimentar pode ser sustentada por um ou por vários desses motivos.
         Eu já fui vegetariano, por muitos anos, e essa opção era sustentada tanto por razões filosóficas quanto fisiológicas relacionadas à saúde. Não sou mais vegetariano, mas raramente como carnes vermelhas. Dou preferência às carnes brancas, especialmente aos peixes. Nos dias atuais, mesmo ainda tendo simpatia pela causa vegetariana tendo em vista  princípios filosóficos, hoje são as preferências gustativas que me fazem optar por carnes brancas e rejeitar as carnes vermelhas.
         Para “condimentar” essa reflexão sobre hábitos alimentares, reproduzo abaixo o texto do Marcelo Gleiser, publicado na folha de São Paulo neste último domingo.

“MARCELO GLEISER
Você comeria carne de proveta?
Imagine que um dia você vai ao supermercado e encontra, junto aos cortes usuais de carne e galinha, carnes produzidas em laboratório.
Um pouco adiante, vê filés de peixe, também criados artificialmente. Um rótulo amarelo distingue os dois tipos de carne: "natural" e "artificial". Qual você escolheria? 
Mesmo que cientistas garantam que não há diferença hormonal, nutricional ou molecular entre os dois tipos de carne, tenho certeza de que a maioria escolheria carnes naturais. Por que isso?
Pode ser por ecos do que chamo de Síndrome de Frankenstein, o medo irracional de que a ciência foi mais longe do que deveria. Porém, se podemos cultivar vegetais, por que não carnes?
Se isso parece coisa de ficção cientifica, pense de novo. Dezenas de laboratórios estão tentando cultivar carne, partindo de amostras de células musculares (que é o principal do que comemos na carne) alimentadas em soluções que induzem a sua proliferação. Em 1999, o holandês Willem van Eelen registrou patentes internacionais da "produção industrial de carne usando culturas celulares". 
Após muito esforço, van Eelen convenceu o governo holandês a financiar projetos de pesquisa em três universidades, visando aprimorar o desenvolvimento de tecido muscular em laboratório.
"Se bilhões de pessoas parassem de comer animais, que ótimo seria oferecer-lhes carnes obtidas sem o horror do matadouro, dos caminhões, das mutilações, da dor e do sofrimento causados pela produção industrial de carnes", afirmou Ingrid Newkirk, cofundadora e presidente da fundação Peta (Pessoas pelo Tratamento Ético de Animais). 
Imagino que Newkirk seja a inimiga número um dos produtores de carne. De minha parte, escrever estas linhas reafirma meu compromisso em ser vegetariano.
Fora as vantagens éticas, existem inúmeras vantagens ambientais: a agropecuária consome quantidades enormes de recursos naturais, da água à energia, fora o desmatamento incluído no pacote. 
Quem tiver problemas em comer carnes feitas em laboratório deveria visitar um matadouro e comparar os dois.
Portanto, a possibilidade parece ser óbvia. Supondo que a carne in vitro seja uma realidade num futuro próximo, quantas pessoas estariam dispostas a comê-la? Note que o processo não envolve qualquer manipulação genética, não tendo nada de transgênico. 
A questão envolve a credibilidade da ciência e a sua percepção popular. Quem vai acreditar nos cientistas que trabalham para a indústria de carnes artificiais? 
Como temos visto com a questão do aquecimento global, os dias em que pessoas equiparavam ciência à verdade já estão longe. 
As coisas se complicam quando os cientistas trabalham para empresas privadas. Pense na diferença entre o depoimento de um especialista em câncer de um hospital e o de outro que trabalhe para uma indústria de cigarros. 
Por outro lado, dado que o consumo mundial de carne é de 285 milhões de toneladas por ano, o potencial econômico é gigantesco, mesmo que só uma fração do público esteja disposta a comer carne de proveta.
Alguns cientistas creem que essa seja a solução para o problema da fome mundial: carne artificial, barata e nutritiva. Outros querem só ganhar dinheiro. 
Espera-se que cientistas do governo informem o público das vantagens e desvantagens da carne artificial. Enquanto isso, talvez seja hora de você repensar seus hábitos alimentares.”