terça-feira, 24 de julho de 2012

Condicionamento e anseio por ser livre


Jiddu Krishnamurti (*)

ERA UM PASSEIO ENCANTADOR. A trilha da casa atravessava o vinhedo, e as uvas apenas começavam a amadurecer; eram abundantes e suculentas e produziriam grande quantidade de vinho tinto. O vinhedo era bem cuidado e não havia qualquer erva daninha. Ao seu lado, estava a cuidadíssima plantação de tabaco, longa e ampla. Após a chuva, das plantas começavam a brotar flores rosadas, perfeitas e limpas; seu aroma frágil de tabaco fresco, tão diferente do cheiro nauseante do tabaco queimado, tornar-se-ia mais intenso sob o sol forte. Os longos talos em que cresciam as flores logo seriam cortados para fazer com que as pálidas folhas verde-prateadas, já bastante grandes, estivessem ainda maiores e mais abundantes na época da colheita. Depois, elas seriam reunidas, classificadas, atadas com longas cordas e penduradas no comprido armazém atrás da casa, para secar de modo uniforme, onde o sol as tocaria, e haveria brisa noturna. Naquele instante, homens já trabalhavam com bois na plantação de tabaco, abrindo sulcos entre as longas e eretas plantas enfileiradas para matar ervas daninhas. O solo fora cuidadosamente preparado e pesadamente adubado, e ervas daninhas haviam crescido nele de modo tão abundante quanto os pés de tabaco; mas, após todas essas semanas, não havia uma única erva daninha à vista.  

A trilha avançava por um pomar de pés de pêssegos, peras, ameixas vermelhas e amarelas, nectarinas e outras árvores, todas carregadas de frutas maduras. Ao entardecer, havia um doce aroma no ar, e durante o dia, o zumbido de muitas abelhas. Além do pomar, a trilha descia uma longa encosta, aprofundando-se em bosques densos e acolhedores. Aqui a terra era macia sob os pés, coberta de folhas mortas de muitos verões. Ficava muito fresco sob as árvores, pois o sol tinha pouca chance de penetrar a espessa folhagem; o solo estava sempre úmido e perfumado, emanando o aroma do rico húmus. Havia muitos cogumelos, a maioria de espécies não comestíveis. Aqui e ali era possível encontrar tipos comestíveis, mas será necessário procurar bem; eles ficavam mais recolhidos, em geral escondidos sob uma folha da mesma cor. Os camponeses chegavam cedo para levá-los para o mercado ou pra o próprio consumo.

Quase não havia pássaros naqueles bosques, que se estendia por milhas sobre as colinas suavemente onduladas. Era muito silencioso; nem mesmo uma leve brisa agitava as folhas. Mas algum movimento sempre estava acontecendo naquela mata, como parte do imenso silêncio; não era perturbador, e parecia aumentar a tranquilidade da mente. As árvores, os insetos, as enormes samambaias não eram separadas, como algo visto de fora; eram parte daquela quietude, interna e externamente. Até o ruído abafado de um trem distante estava contido nessa paz. Havia completa ausência de resistência, e os latidos de um cão, insistentes e penetrantes, pareciam aumentar o sossego.

Além do bosque, ficava o rio, sinuoso e adorável. Não era muito largo ou impressionante, mas amplo na medida justa para permitir que olhos aguçados avistassem as pessoas na margem oposta. Ao longo de ambas as margens, havia árvores, principalmente choupos, altos e majestosos, com as folhas tremulando na brisa. A água era profunda e fresca, sempre fluindo. Era algo belo de se contemplar, cheio de vida e abundância. Havia um pescador solitário sentado num banquinho, com uma cesta de piquenique a seu lado e um jornal sobre os joelhos. O rio trazia contentamento e paz, ainda que os peixes parecessem evitar a isca. O rio sempre estaria lá, mesmo que guerras acontecessem e homens morressem; ele sempre estaria nutrindo a terra e as pessoas. Ao longe, assomavam as montanhas nevadas e, num entardecer desanuviado, quando o sol poente as tocava, seus picos altos eram vistos como nuvens iluminadas pelo sol.

Éramos três ou quatro na sala, e logo além da janela havia um gramado amplo e resplandecente. O céu era de um azul pálido, com grande e movimentadas nuvens.

“Será realmente possível”, indagou o homem, “que a mente se livre de seu condicionamento? Se for, qual é o estado de uma mente que se descondicionou? Ouvi suas palestras durante vários anos, e dediquei muita reflexão ao assunto, mas minha mente não parece capaz de romper com as tradições e ideias que foram implantadas na infância. Sei que sou tão condicionado quanto qualquer outra pessoa. Desde a infância, somos ensinados a nos conformar – brutalmente, ou com carinho e sugestões gentis – até que a conformidade se torna instintiva, e a mente teme a insegurança de não se conformar.

“Tenho uma amiga que cresceu em ambiente católico”, continuou ele, “e, naturalmente, ela ouviu falar sobre o pecado, o fogo do inferno, as alegrias confortadores do céu e tudo mais. Ao chegar à maturidade, e depois de muito pensar, ela abandonou a estrutura católica de pensamento; mas, mesmo agora, na vida adulta, ela se vê influenciada pela ideia do inferno, com seus pavores contagiantes. Embora minha formação seja um tanto diferente na superfície, tal como ela, também tenho medo de não me conformar. Vejo o absurdo do conformismo, mas não consigo me livrar dele; e, mesmo que pudesse, provavelmente estaria fazendo o mesmo de outra forma – simplesmente me conformando a um no novo molde.”

“Essa também é minha dificuldade”, disse uma das senhoras. “Vejo com bastante clareza as muitas maneiras pelas quais estou presa à tradição; mas será que posso me livrar de meu presente cativeiro sem recair em outro? Há pessoas que passam de uma organização religiosa a outra, sempre buscando, nunca satisfeitas; e quando finalmente, ficam satisfeitas, tornam-se terrivelmente chatas. Provavelmente, é o que acontecerá comigo se eu tentar romper com meu presente condicionamento: sem perceber, serei arrastada par outro padrão de vida.”

“Na verdade”, continuou o homem, “a maioria de nós nunca pensou profundamente sobre como a mente é quase completamente moldada pela sociedade e pela cultura em que crescemos. Não nos damos conta de nosso condicionamento, e simplesmente prosseguimos, lutando, buscando, ou sendo frustrados nos moldes de determinada sociedade. Esse é o destino de quase todos nós, incluindo políticos e lideres religiosos. Infelizmente para mim, talvez, compareci a muitas de suas palestras, e logo começou a dor do questionamento. Durante algum tempo, não pensei no assunto com profundidade, mas, de repente, vi que me tornava sério. Andei experimentando, e agora estou consciente de muitas coisas em mim que jamais havia notado. Se eu puder continuar sem os que os presentes sintam que estou tagarelando demais, gostaria de me aprofundar um pouco mais na questão do condicionamento.”

Quando os outros lhe garantiram que também estavam profundamente interessados nesse tema, ele prosseguiu.

“Após ouvir ou ler a maioria das coisas que você disse, percebi o quanto sou condicionado; e, da mesma maneira, vi que um indivíduo deve livrar-se do condicionamento – não apenas do condicionamento da mente superficial, mas também do inconsciente. Percebi a absoluta necessidade disso. Mas o que realmente está ocorrendo é o seguinte: o condicionamento que recebi em minha juventude continua, e, ao mesmo tempo, há um forte desejo de me descondicionar. Assim, minha mente está presa nesse conflito entre o condicionamento que percebo e a ânsia por me livrar dele. Essa é minha situação atual. Como devo proceder agora?”

O anseio da mente por se libertar do condicionamento põe em marcha outro padrão de resistência e condicionamento, não?  Ao se tornar consciente do padrão ou molde em que cresceu, você deseja libertar-se dele; mas esse desejo de liberdade não condicionará a mente mais uma vez, de maneira diferente? O antigo padrão insiste que se conforme à autoridade, e, agora você está desenvolvendo uma nova autoridade, que insiste que você não deve se conformar; assim, você tem dois padrões em conflito entre si. Enquanto houver essa contradição interna, mais condicionamentos ocorrerão.

“Sei que o antigo padrão é completamente absurdo e morto, e que preciso libertar-me dele; caso contrário, minha mente continuará da mesma maneira estúpida.”

Sejamos pacientes e nos aprofundemos na questão. A velha regra lhe dizia para se conformar, e por diversas razões – medo da insegurança, entre outras, – você se adaptou. Pois bem, por razões de um tipo distinto, mas nas quais ainda há medo e desejo de segurança, você sente que não deve se conformar. É isso que ocorre, não?

“Sim, mas ou menos. Mas o antigo é estúpido, e eu tenho de me livrar da estupidez.”

Permita-me destacar que você não está ouvindo. Segue insistindo que o antigo é mau, e que você precisa do novo. Mas alcançar o novo não é o problema, em absoluto.

“Esse é meu problema, senhor.”

Será? Você acredita nisso, mas vejamos. Por favor, não prossiga com seus pensamentos sobre o problema, apenas ouça, pode ser?

“Vou tentar.”

Uma pessoa se conforma instintivamente por várias razões: por apego, medo, desejo de recompensa e assim por diante. Essa é a primeira reação de um indivíduo. Porém, chega alguém e diz que o indivíduo deve se livrar do condicionamento, e daí surge o anseio por não se conformar. Está entendendo?

“Sim, senhor, isso está claro.”

Pois bem, há alguma diferença essencial entre o desejo de se conformar e o anseio por libertar-se da conformidade?

“Parece que deveria haver, mas realmente não sei. O que me diz, senhor?”

Não cabe a mim dizer, nem a você aceitar. Será que você não tem de descobrir por si mesmo se existe alguma diferença fundamental entre esses dois desejos aparentemente opostos?

“Como posso descobrir?”

Ao não condenar o primeiro nem buscar ansiosamente o segundo. Qual é o estado da mente que anseia por se livrar da conformidade, e que a rejeita? Por favor, não me responda, apenas sinta, realmente vivencie esse estado. As palavras são necessárias para a comunicação, mas não são a experiência real. A menos que você realmente vivencie e compreenda esse estado, seus esforços por se libertar só provocarão a formação de outros padrões. Não é assim?

“Não compreendo muito bem.”

Certamente, não dar fim completo ao mecanismo que produz padrões, moldes, sejam eles positivos ou negativos, implica continuar num padrão ou condicionamento modificado.

“Eu compreendo isso verbalmente, mas não o sinto de fato.”

Para um homem faminto, a mera descrição da comida não tem valor; ele deseja comer.

Há o anseio que forma a conformidade e o anseio por ser livre. Independente do quão diferentes pareçam dois anseios, não são fundamentalmente semelhantes? E, se assim são, então sua busca por liberdade é vã, pois você apenas se deslocará de um padrão a outro, incessantemente. Não há qualquer condicionamento nobre, ou melhor, todo condicionamento é dor. O desejo de ser, ou de não ser, gera condicionamento, e é esse desejo que deve ser compreendido.


(*)  Um dos textos do livro:  Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 3 / Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Atento na "correnteza do rio"


Roberto Lira
 Faz algum tempo, escrevinhei dois textos  ( aqui* e aqui** ) com o assunto “a outra margem do rio”. No primeiro texto, o tema foi conceituado como um local procurado pelos seres humanos, onde a felicidade é permanente e que para muitos é chamado de céu, paraíso, nirvana, et cetera. Nele, tentei reflexionar sobre “como” alçar a referida margem. No segundo texto, procurei fazer um analogismo das minhas vivências com o tema e levantei uma série de questões sobre o mesmo. Conclui manifestando minha aspiração de alcançar “a outra margem do rio” e aventei a possibilidade de voltar a escrevinhar sobre futuras compressões decorrentes desse processo. Nesta escrevinhação, é este o propósito.

Tentando vivenciar o aqui e agora, as compreensões do momento me conduzem a cessação da busca em alcançar “a outra margem do rio”. Passei apenas a apreciar a correnteza do rio, ou seja, a ficar passivamente atento observando o correr da vida e, quando oportuno, dar umas braçadas a favor da correnteza. Desse modo, tenho me sentido mais leve como “nadador”.

Em qualquer ambiente aquático, nadar torna-se muito mais fácil quando estamos despidos de qualquer roupagem. Nadar sem um estilo pré-determinado nas correntezas da vida nos permite uma locomoção apropriada em todos os momentos do viver. Sem pré-conceitos, sem recordes a bater, sem prêmios a ganhar, sem glórias a lembrar, sem objetivos a alcançar, nadar nesse rio da vida torna-se algo incomum. Algo que não é repetição, conformidade, alegria ou tristeza, prazer ou dor, mas simplesmente viver. Viver sem querer ter nem ser. Viver por viver, porque é maravilhoso viver, com ou sem insigths.
A atenção, no aqui e agora, deve continuar!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A felicidade criativa


Jiddu Krishnamurti (*)

 EXISTE UMA CIDADE às margens do majestoso rio. Amplos e longos degraus levam até a beira d´água e o mundo todo parece viver neles. Desde cedo pela manhã até bem depois de escurecer eles estão sempre fervilhando com pessoas e ruídos; quase no mesmo nível da água, existem pequenos degraus protuberantes nos quais as pessoas sentam-se e se perdem em suas esperanças e anseios, em seus deuses e cânticos. Os sinos do templo tocam, o muezim chama; alguém canta e uma enorme massa de pessoas reúne-se, ouvindo em silêncio respeitoso.

Além disso tudo, depois da curva e subindo o rio, há um amontoado de edifícios. Com suas avenidas arborizadas e amplas ruas, eles se estendem por vários quilômetros para o interior; e, ao longo do rio, por uma alameda estreita e suja, a pessoa entra nesse vasto campo de aprendizagem. Muitos alunos de todas as partes do país estão lá, ansiosos, ativos e barulhentos. Os professores são imponentes, tramando por melhores cargos e salários. Ninguém parece estar muito preocupado com o que acontecerá com os alunos quando eles forem embora. Os professores transmitem certos conhecimentos e técnicas que os mais inteligentes rapidamente absorvem; e, quando eles se formam, isso é tudo. Eles têm empregos garantidos, têm famílias e segurança; mas, quando os alunos vão embora, precisam enfrentar a agitação e a insegurança da vida. Existem esses edifícios, esses professores e alunos por toda parte. Alguns alunos alcançam fama e reconhecimento no mundo; outros respiram, lutam e morrem. O Estado quer técnicos competentes, administradores para guiarem e controlarem; e ainda há o Exército, a Igreja e os negócios. No mundo inteiro, é igual.

É para aprender uma técnica e ter um emprego, uma profissão, que passamos por esse processo de ter a mente superficial recheada de fatos e conhecimentos, não é? Obviamente, no mundo moderno, um bom técnico tem mais chance de ganhar a vida; mas e daí? Alguém que seja um técnico está mais capacitada a enfrentar o complexo problema de viver do que um que não o seja? Uma profissão é apenas uma parte da vida; mais existem também aquelas partes que são ocultas, sutis e misteriosas. Enfatizar uma e negar ou negligenciar o restante deverá levar inevitavelmente a atividades muito desequilibras e desintegradoras. É isso precisamente o que está acontecendo no mundo atual, com o aumento constante de conflitos, confusões e infelicidade. Claro que existem algumas exceções: os criativos, os felizes, aqueles que estão em contato com algo que não é criado pelo homem, que não dependem daquilo que pertence à mente.

Você e eu temos intrinsecamente a capacidade de sermos felizes, criativos, de estarmos em contato com algo que transcenda as garras do tempo. A felicidade criativa não é uma dádiva reservada a poucos; por que, então, a maioria não conhece essa felicidade? Por que alguns parecem manter contato com o que é profundo apesar das circunstâncias e dos acasos, ao passo que outros são destruídos por eles? Por que alguns se mostram resistentes, maleáveis, enquanto outros permanecem inflexíveis e são destruídos? Apesar do conhecimento, alguns mantêm a porta aberta para aquilo que nenhuma pessoa e nenhum livro pode oferecer, enquanto outros são sufocados pela técnica e pela autoridade. Por quê? Está relativamente claro que a mente deseja ficar presa e garantida em algum tipo de atividade, negligenciando assuntos mais profundos e amplos, pois desse modo, estará em terreno mais seguro; então, sua educação seus exercícios e suas atividades serão estimulados e sustentados nesse nível e desculpas serão encontradas para que não avancem além disso.

Antes de serem contaminadas pela suposta educação, muitas crianças estão em contato com o desconhecido; elas demonstram isso de muitas maneiras. Mas logo o ambiente começa a fechar-se em torno delas e, depois de certa idade, elas perdem aquela luz, aquela beleza que não é encontrada em livros ou escolas. Por quê? Não diga que a vida é demais para elas, que elas têm de enfrentar a dura realidade, que é o carma delas, que é o pecado dos pais delas; tudo isso é bobagem. A felicidade criativa não tem valor no mercado; não é uma mercadoria para ser vendida pelo melhor preço e é a única coisa que pode existir para todos.

A felicidade criativa é concretizável? Ou seja, a mente pode estar em contato com aquilo que é a fonte de toda a felicidade? Essa abertura pode ser mantida apesar do conhecimento e da técnica, apesar da educação e da afobação da vida? Ela pode, mas apenas quando o educador é preparado para essa realidade, somente quando aquele que ensina está, ele mesmo, em contato com a fonte da felicidade criativa. Então nosso problema não é o aluno, a criança, mas o professor e o pai. A educação só é um circulo vicioso quando não percebemos a importância, a necessidade essencial acima de tudo mais, dessa suprema felicidade. Afinal, estar aberto à fonte de toda a felicidade é a religião superior; mas, para concretizar essa felicidade, você precisa dar a atenção correta a ela, como dá aos negócios. A profissão de professor não é um simples trabalho rotineiro, mas a expressão da beleza e da alegria, que não pode ser medida em termos de realizações e sucesso.

A luz da realidade e sua bem-aventurança são destruídas quando a mente, que é o centro do ser, assume o controle. O autoconhecimento é o início da sabedoria; sem autoconhecimento o aprendizado conduz a ignorância, discórdia e tristeza.


(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 2 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2009


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sensação e felicidade


Jiddu Krishnamurti (*)

ESTÁVAMOS BEM ALTO sobre o oceano verde, e o barulho das hélices batendo no ar e o ruído do motor dificultavam a conversa. Além disso, havia alguns universitários dirigindo-se a um encontro de atletismo na ilha; um deles tinha um banjo, e o tocou e cantou por muitas horas. Atiçou os outros e todos se uniram para cantar. O rapaz com o banjo tinha uma boa voz e as músicas eram americanas, canções populares, regionais ou de jazz. Faziam tudo muito bem, exatamente como nos discos. Formavam um grupo estranho, preocupados apenas com o presente; eles não tinham um único pensamento em nada além do divertimento imediato. O amanhã continha todos os problemas: emprego, casamento, velhice e morte. Mas aqui, bem alto sobre o mar, havia músicas americanas e as revistas em quadrinhos. Eles ignoraram o relâmpago entre as nuvens escuras e não viram a curva da terra enquanto ela acompanha o mar, nem a cidade distante ao sol.
A ilha estava quase embaixo de nós agora. Era verde e reluzente, recém-lavada pelas chuvas. Como tudo era limpo e arrumado daquela altura! O morro mais alto era achatado e as ondas brancas não tinha movimento. Um barco pesqueiro marrom com velas se apressava antes da tempestade; ele alcançaria a segurança, pois o porto estava à vista. O rio sinuoso descia até o mar e a terra marrom-dourada. Naquela altura avistava-se o que estava acontecendo em ambos os lados do rio, e o passado e o futuro se encontravam. O futuro não estava oculto, embora estivesse depois da curva. Naquela altura não havia o passado nem o futuro; o espaço curvo não escondia nem o tempo de semear nem o tempo de colher.
O homem na outra poltrona começou a falar das dificuldades da vida. Ele reclamava do emprego, das viagens constantes, da falta de consideração de sua família e da futilidade da política moderna. Dirigia-se a algum lugar distante e estava bastante triste em deixar seu lar. Enquanto falava, foi ficando cada vez mais sério, cada vez mais preocupado com o mundo e especialmente consigo mesmo e com a família.
“Eu gostaria de me afastar de tudo isso e ir para algum lugar tranquilo, trabalhar um pouco e ser feliz. Não acho que tenha sido feliz em toda a minha vida, e não sei o que isso quer dizer. Vivemos, procriamos, trabalhamos e morremos, como qualquer outro animal. Perdi todo o entusiasmo, exceto por fazer dinheiro, e isso também está se tornando bastante entediante. Eu sou razoavelmente bom em meu trabalho e ganho um bom salário, mas não tenho a menor ideia do que tudo isso significa. Gostaria de ser feliz, o que você acha que posso fazer a respeito?”
Esse é um assunto complexo de entender, e dificilmente esse é o lugar para uma conversa séria.
“Temo não ter uma hora melhor; no momento em que pousarmos, precisarei decolar novamente. Posso não parecer sério, mas há pontos de seriedade em mim; o único problema é que eles nunca parecem se unir. Sou realmente sério interiormente. Meu pai e meus parentes mais velhos eram famosos pela seriedade, mas as atuais condições econômicas não permitem que alguém seja completamente sério. Tenho me afastado de tudo, mas gostaria de voltar a isso e esquecer toda a estupidez. Suponho que seja fraco e que reclamo das circunstâncias; mas, mesmo assim, gostaria de ser realmente feliz.”
Sensação é uma coisa e felicidade é outra. A sensação está sempre buscando mais sensação, sempre em círculos cada vez mais amplos. Não há fim para os prazeres da sensação; eles se multiplicam, mas sempre existe insatisfação em sua gratificação; sempre há o desejo por mais, e este é interminável. Sensação e insatisfação são inseparáveis, pois o desejo por mais as une. Sensação é o desejo por mais e também o desejo por menos. No próprio ato de satisfazer uma sensação, nasce a demanda por mais. O mais está sempre no futuro; é a insatisfação permanente com o que foi. Há conflito entre o que foi e o que será. Sensação é sempre insatisfação. Pode-se vestir a sensação em trajes religiosos, mas ela ainda será o que é: uma coisa da mente e uma fonte de conflito e apreensão. Sensações físicas estão sempre implorando por mais; e quando são frustradas, existe raiva, ciúme, ódio. Há prazer no ódio, e o ciúme é gratificante; quando alguém é frustrado, a satisfação é encontrada no próprio antagonismo que a frustração criou.
A sensação é sempre uma reação que vaga de uma reação para outra. Quem vaga é a mente; a mente é a sensação. A mente é o depósito das sensações, agradáveis ou desagradáveis, e toda experiência é reação. A mente é memória, que afinal de contas é reação. As reações ou sensações jamais podem ser satisfeitas; a reação jamais pode estar contente. A reação é sempre negação, e o que não existe jamais poderá ser. A sensação não conhece contentamento. A sensação e a reação devem sempre gerar conflito, e o próprio conflito é mais sensação. Confusão produz confusão. A atividade da mente, em todos os seus diferentes níveis, é ajudar a expandir a sensação; e quando essa expansão é negada, ela encontra gratificação na contração. A sensação, a reação, são o conflito dos opostos; e nesse conflito de resistência e aceitação, cedendo e rejeitando, existe a satisfação, que sempre busca mais satisfação.
A mente jamais pode encontrar felicidade. Felicidade não é uma coisa a ser buscada e encontrada, como a sensação. A sensação pode ser encontrada repetidamente, pois está sempre sendo perdida; mas a felicidade não pode se encontrada. Felicidade lembrada é somente uma sensação, uma reação do presente ou contra ele. O que acaba não é felicidade; a experiência da felicidade que termina é sensação, pois recordação é o passado e o passado é sensação Felicidade não é sensação.
Você já percebeu estar feliz?
“Claro que sim, graças a Deus, de outra forma eu não saberia o que é ser feliz.”
Certamente, aquilo que percebia era a sensação de uma experiência que você chama de felicidade; mas isso não é felicidade. O que você conhece é o passado, não o presente; e o passado é sensação, reação, memória. Você lembra que era feliz; e pode o passado dizer o que é felicidade? Ele pode lembrar mas não pode ser. Reconhecimento não é felicidade; saber o que é ser feliz não é felicidade. O reconhecimento é a reação da memória; e pode a mente, o complexo de memórias, de experiências, ser feliz? O próprio reconhecimento impede a experienciação.
Quando você percebe que é feliz, há felicidade? Quando há felicidade, você está atento a ela? A conscientização só vem com conflito, o conflito da recordação do “mais”. A felicidade não é a recordação do “mais”. Onde há conflito, a felicidade não está presente. Conflito é onde a mente está. O pensamento, em todos os níveis, é a reação da memória, e assim o pensamento, invariavelmente, produz conflito. Pensamento é sensação e sensação não é felicidade. As sensações sempre buscam gratificações. A finalidade é a sensação, mas a felicidade não é finalidade; ela não pode ser buscada.
“Mas como as sensações podem acabar?”
Acabar com as sensações é convidar a morte. Mortificação é só uma outra forma de sensação. Na mortificação, física ou psicológica, a sensibilidade é destruída, mas não a sensação. O pensamento que mortifica a si mesmo estão só em busca de outras sensações, pois o próprio pensamento é sensação.  Ele jamais pode pôr fim à sensação; pode ter sensações diferentes, em outros níveis, mas não encontra fim para elas. Destruir a sensação é estar insensível, morto; não ver, não cheirar, não tocar é estar morto, que é isolamento. Nosso problema é inteiramente diferente, não é? O pensamento jamais pode trazer felicidade; ele pode somente lembrar sensações, pois o pensamento é sensação. Ele não pode cultivar, produzir ou avançar em direção à felicidade. O pensamento só pode ir em direção àquilo que conhece, mas o conhecido não é felicidade; o conhecido é sensação. Faça o que fizer, o pensamento não pode ser feliz ou buscar felicidade. O pensamento só pode estar atento a sua própria estrutura, a seu próprio movimento. Quando o pensamento se esforça para dar um fim a si mesmo, está somente buscando ser bem-sucedido, alcançar uma meta, um fim que será mais gratificante. O “mais” é conhecimento, mas não felicidade. O pensamento deve estar atento a seus próprios mecanismos, a seus próprios enganos astutos. Ao estar atenta a si mesmo, sem qualquer desejo de ser ou não ser, a mente chega a um estado de inação. Inação não é morte, é uma vigilância passiva na qual o pensamento está totalmente inativo. É o estado mais elevado de sensibilidade. Quando a mente está completamente inativa, em todos os seus níveis, só então há ação. Todas as atividades da mente são meras sensações, reação a estímulos, a influências, e portanto não são absolutamente ações. Quando a mente está sem atividade, há ação; essa ação é sem causa, e somente aí existe a felicidade perfeita.


(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 1 /Jiddu Krishnamurti. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Satisfação


Jiddu Krishnamurti (*)


O CÉU ESTAVA CARREGADO de nuvens e o dia quente, embora a brisa brincasse com as folhas. Houve um trovão ao longe e um chuviscar assentava a poeira da estrada. Os papagaios voavam loucamente, gritando até não poder mais, e uma grande águia pousou no galho mais alto de uma árvore, alisando-se e observado toda a atividade que acontecia embaixo. Um macaquinho estava sentado em outro galho. Os dois se vigiavam a uma distância segura. Logo um corvo se juntou a eles. Depois de sua higiene matinal, a águia permaneceu imóvel por um momento e então levantou vôo. Exceto para os seres humanos, era um novo dia; nada era igual à ontem. As árvores e os papagaios não eram os mesmos; a grama e os arbustos tinham uma qualidade totalmente diferente. A recordação de ontem só obscurece o hoje e a comparação impede a percepção. Como eram bonitas as flores vermelhas e amarelas! A beleza não pertence ao tempo. Carregamos nossos fardos diariamente, e jamais existe um dia sem a sombra de muitos ontens. Nossos dias são um movimento contínuo, ontem misturando-se com o hoje e o amanhã; jamais há um fim. Temos medo do fim; mas, sem fim, como pode haver o novo? Sem a morte, como pode haver a vida? E como sabemos pouco sobre as duas! Temos todas as palavras, as explicações, e elas nos satisfazem. As palavras distorcem o fim e só há fim quando a palavra não existe. Conhecemos o fim que é das palavras; mas jamais conhecemos o fim sem palavras, o silêncio que não é das palavras. Conhecer é memória; a memória é sempre continua e o desejo é o fio que liga os dias. O fim do desejo é o novo. A morte é o novo e a vida como continuação é somente memória, uma coisa vazia. Com o novo, vida e morte são iguais.

Um menino andava a passos largos, cantando enquanto caminhava. Ele sorria para todos por quem passava e pareceria ter muitos amigos. Estava malvestido, com um pano sujo em torno da cabeça, mas tinha um rosto radiante e olhos vivos. Com seus passos largos, passou por um homem gordo usando um boné. O homem andava devagar, com a cabeça baixa, preocupado e nervoso. Ele não ouviu a canção entoada pelo menino, nem mesmo olhou para o cantor. O menino transpôs os grandes portões; passando por lindos jardins e atravessando a ponte sobre o rio, contornou a curva em direção ao mar, onde se juntou a alguns companheiros. Enquanto a escuridão aumentava, todos começaram a cantar juntos. Os faróis de um carro iluminavam seus rostos e seus olhos estavam absortos em prazeres desconhecidos. Chovia bastante e tudo estava encharcado.

Ele era um doutor não só em medicina, mas também em psicologia. Magro, calado e contido, viera de outras terras e estava nesse país tempo suficiente para ter-se acostumado ao sol e às chuvas fortes. Ele trabalhara, disse, como médico e psicólogo durante a guerra e ajudara ao máximo, até onde sua capacidade permitiu, mas estava insatisfeito com o que fizera. Queria fazer muito mais, ajudar muito mais profundamente; o que tinha feito fora muito pouco e algo estava faltando.

Sentamo-nos sem falar por um longo período enquanto ele recolhia as pressões de sua agonia. O silêncio é uma coisa estranha. O pensamento não produz silêncio, nem o silêncio se constrói. O silêncio não pode ser reunido nem chega pelo ato da vontade. A recordação do silêncio não e silêncio. O silêncio estava presente na sala em uma quietude palpitante e a conversa não o perturbou. A conversa fazia sentido naquele silêncio, que era o segundo plano da palavra. O silêncio transmitia expressão ao pensamento, mas o pensamento não era silêncio. O raciocínio não estava presente, mas o silêncio estava; e o silêncio penetrava, reunia e dava expressão. O raciocínio jamais pode penetrar, e no silêncio existe a comunhão.

O médico dizia estar insatisfeito com tudo: com seu trabalho, com suas capacidades, com todas as ideias que cultivara tão cuidadosamente. Tentara as várias escolas de pensamento e estava insatisfeito com todas elas. Durante os vários meses desde que chegara aqui, estivera com diversos mestres, mas se afastara com ainda maior insatisfação. Experimentara muitos “ismos”, incluindo o cinismo, mas a insatisfação ainda estava lá.

Você está em busca de satisfação e não a encontrou ainda, é isso? O desejo por satisfação está causando o descontentamento? Buscar subentende o conhecido. Você diz que está insatisfeito e ainda assim está buscando; você esta procurando por satisfação e ainda não a encontrou. Você quer satisfação, o que significa que você não está insatisfeito. Se você estivesse realmente insatisfeito com tudo, não estaria buscando uma saída disso. A insatisfação que busca ser satisfeita logo encontra o que deseja em um tipo qualquer de relacionamento, com posses, como uma pessoa ou com algum “ismo”.

“Já passei por tudo isso, mas estou completamente insatisfeito.”

Você pode estar insatisfeito com os relacionamentos externos, mas talvez busque algum apego psicológico que proporcione a satisfação total.

“Também já passei por isso, mas ainda estou insatisfeito.”

Pergunto-me se você realmente está. Se estivesse totalmente descontente não haveria um movimento em qualquer direção em particular, haveria? Se você está completamente insatisfeito na mesma sala, você não busca uma sala maior com móveis mais bonitos; mas esse desejo de encontrar uma sala melhor é o que você chama de insatisfação. Você não está insatisfeito com todas as salas, mas somente com essa específica, da qual você quer fugir. Sua insatisfação surge de não ter encontrado a satisfação completa. Você, de fato, busca satisfação, então constantemente procura, julga, compara, pondera, rejeita; e, naturalmente, você está insatisfeito. Não é isso?

“Parece que sim, não é?”

Então você não está na verdade insatisfeito; simplesmente você até agora não foi capaz de encontrar a satisfação total e duradoura em nada. É isso que você quer: satisfação completa, algum contentamento interior profundo que perdure.

“Mas eu quero ajudar, e esse descontentamento me impede de me doar a isso completamente.”

Sua meta é ajudar e encontrar completa gratificação nisso. Você realmente não quer ajudar, mas encontrar satisfação em ajudar. Você procura por satisfação na ajuda, outro procura por ela em algum “ismo” e ainda outro em algum tipo de vício. Você procura por uma droga que satisfaça totalmente, que por ora chama de ajudar. Na busca de se preparar para ajudar, você espera ser completamente gratificado. O que você realmente quer é autogratificação duradoura.

Com a maioria, o descontentamento encontra um contentamento fácil. O descontentamento é logo anestesiado; ele rapidamente é drogado, silenciado e transformado em respeitável. Exteriormente, você pode ter acabado com todos os “ismos”, mas psicologicamente, bem no fundo, você busca algo a que possa se prender. Você diz que terminou com todos os relacionamentos pessoais com terceiros. Pode ser que não tenha encontrado gratificação duradoura nos relacionamentos pessoais e assim busque um relacionamento com uma ideia, que é sempre projetada. Na busca por um relacionamento completamente gratificante, por um refúgio seguro que resista a todas as tormentas, você não perde a própria coisa que traz contentamento? Contentamento talvez seja uma palavra feia, mas contentamento real não subtende estagnação, reconciliação apaziguamento, insensibilidade. Contentamento é o entendimento do que é, e o que é não é jamais estático. A mente que interpreta, que traduz o que é, esta presa em seu próprio preconceito de satisfação. Interpretação não é entendimento.

Com o entendimento do que é vem o amor inesgotável, a ternura, a humildade. Talvez seja isso que você busque; mas isso não pode ser buscado e encontrado. Faça o que fizer, nunca o encontrará. Existirá quando toda a busca chegar ao fim. Você só pode buscar aquilo que já conhece, que é mais gratificação. Buscar e observar são dois processos diferentes; um é tolhimento e o outro produz entendimento. A busca, tendo sempre um fim em vista, é sempre tolhimento; a vigilância passiva traz entendimento do que é de momento a momento. No que é de momento a momento há sempre fim; na busca há continuidade. A busca jamais pode encontrar o novo; somente no fim existe o novo. O novo e inexaurível. Só o amor é sempre renovador.


(*) Um dos textos do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – volume 1 /Jiddu Krishnamurti.  Rio de Janeiro: Nova Era, 2007

terça-feira, 10 de julho de 2012

“Por que você dissolveu a Ordem da Estrela?”



Jiddu Krishnamurti (*)

 . . .

Ele era um homem jovem, acabara de sair da faculdade e era entusiasmado. Movido pelo desejo de fazer o bem, recentemente aderira a um movimento no sentido de ser mais eficaz, e gostaria de dedicar  toda a vida a ele; mas, infelizmente, seu pai era inválido, e ele tinha de sustentar os progenitores. Ele percebia os inconvenientes do movimento, como seus méritos, mas o bem compensava o mal. Não era casado, disse, e nunca o seria. Seu sorriso era amigável, e ele estava ansioso por se expressar.

“Outro dia, eu estava presente em sua palestra, na qual você disse que a verdade não pode se organizada, e que nenhuma organização pode levar alguém a ela. O senhor foi muito definitivo a esse respeito, mas sua explicação não foi totalmente satisfatória para mim, e quero debater esse tema. Sei que você foi líder de uma grande organização no passado, a Ordem da Estrela, que o senhor dissolveu, e, se me permite perguntar, isso correu por um capricho pessoal ou foi motivado por algum princípio?”

            Nenhum dos dois. Se existe uma causa para a ação, há ação? Se você renuncia por conta de um princípio, uma ideia, uma conclusão, há renuncia? Se você abandona algo em nome de algo maior, ou por alguma pessoa, isso significa, de fato, abandonar?

“A razão não desempenha um papel relevante na renuncia; é isso que quer dizer?”

A razão pode levar alguém a se comportar desta ou daquela maneira; mas o que é concebido pela razão pode ser desfeito pela razão. Se ela é o critério da ação, a mente nunca pode estar livre para agir. A razão, não importa qual sutil e lógica, é um processo de pensar, e o pensar é sempre influenciado, condicionado por fantasia pessoal, pelo desejo ou uma ideia, uma conclusão, seja imposta ou autoinduzida.

“Se não foi razão, princípio ou desejo pessoal o que o levou a fazer isso, então foi algo fora de si mesmo, um agente superior ou divino?”

Não. Mas talvez fique claro se pudermos abordar o assunto de maneira diferente. Qual é o seu problema?

“Você disse que a verdade não pode ser organizada e que nenhuma organização pode levar o homem à verdade. A organização a que pertenço sustenta que o homem pode ser levado à verdade por meio de determinados princípios de ação, do esforço pessoal correto, de se entregar às boas obras e assim por diante. Meu problema é o seguinte: será que estou no caminho certo?”

Você acha que há um caminho par a verdade?

“Se não achasse isso, não pertenceria a essa organização. Segundo nossos lideres, a organização se baseia na verdade; é dedicada ao bem-estar de todos, e ajudará tanto o aldeão quanto as pessoas altamente educadas e que detêm cargos de responsabilidade. No entanto, quando ouvi sua palestra outro dia, fiquei perturbado, e por isso aproveitei a primeira oportunidade de visitá-lo. Espero que você compreenda minha dificuldade.”

Vamos abordar o assunto devagar, passo a passo. Em primeiro lugar, há um caminho para a verdade? Um caminho implica avançar de um ponto fixo a outro. Como entidade viva, você está mudando, reformulando, forçando, questionando a si próprio, na esperança de encontrar uma verdade permanente, imutável. Não é mesmo?

“Sim. Quero encontrar a verdade, ou Deus, a fim de fazer o bem”, ele respondeu com entusiasmo.

É certo que não há nada permanente em você além do que você considera como tal; mas seu pensamento também é transitório, não é? E a verdade teria um lugar fixo, sem qualquer movimento?

“Eu não sei. Vemos tanta pobreza, tanta infelicidade e confusão no mundo, e com nosso desejo de fazer o bem, aceitamos um líder ou uma filosofia que ofereça alguma esperança. De outra forma, a vida seria terrível.”

Todas as pessoas decentes querem fazer o bem, mas a maioria de nós não reflete sobre o problema. Dizemos que não podemos pensar sozinhos ou que os lideres sabem mais. Mas será certo? Veja os vários lideres políticos, os chamados líderes religiosos e os lideres da reforma econômica e social. Todos têm esquemas, cada um dizendo que o seu é caminho para a salvação, para erradicação da pobreza e assim por diante; e indivíduos como você que querem agir em face de toda essa infelicidade e caos, são apanhados na teia da propaganda e das afirmações dogmáticas. Você não reparou que a própria ação gera muito mais infelicidade e caos?

A verdade não tem domicílio fixo; é algo vivo, mais desperto, mais dinâmico do que tudo que a mente possa pensar, portanto, não pode haver caminho para ela.

“Acho que compreendo isso, senhor. Mas você é contra todas as organizações?”

Obviamente, seria tolo ser “contra” os correios ou outras organizações similares. Mas você não está se referindo a essas organizações, não é?

“Não. Estou falando de Igrejas, grupos espirituais, sociedades religiosas e por aí vai. A organização à qual pertenço abraça todas as religiões, e qualquer um que esteja preocupado com melhora física e espiritual do homem pode ser um membro. Evidentemente, essas organizações sempre têm seus líderes, que dizem conhecer a verdade, ou que levam uma vida santificada.”

A verdade pode ser organizada, com um presidente e um secretário ou com altos sacerdotes e intérpretes?

“Se compreendi a questão corretamente, parece que não. Então por que esses líderes santificados dizem que suas organizações são necessárias?”

Não importa o que dizem os líderes, pois eles são tão cegos quanto seus seguidores; caso contrário, não seriam líderes. O que você acha, independente de seus lideres? Essas organizações são necessárias?

“Talvez não sejam estritamente necessárias, mas realmente encontro conforto ao pertencer a uma dessas organizações, e trabalhar com outras pessoas com a mesma visão.”

Exato. E há também um sentimento de segurança em ser orientado sobre o que fazer, não? O líder sabe, e você, o seguidor, não sabe; assim, sob a direção dele, você sente que pode fazer a coisa certa. Ter uma autoridade sobre a sua pessoa, alguém para guiá-lo, é muito reconfortante, especialmente quando em todos os lados há tanto caos e infelicidade. É por isso que você se torna não exatamente um escravo, mas um seguidor, executando o plano estabelecido pelo líder. É você, o ser humano, que causa toda essa bagunça no mundo, mas você não é importante; só ao plano dão importância. Mas o plano é mecânico, precisa de seres humanos para colocá-lo em operação; portanto, você se torna útil ao plano.

E existem os sacerdotes, com sua autoridade divina para salvar a alma, e desde a infância você é condicionado por eles a pensar de certa maneira. Novamente, você não é importante como ser humano; não é sua liberdade, seu amor, o que interessa, mas sua alma, que deve ser salva de acordo com os dogmas de determinada religião ou seita.

“Eu vejo a verdade disso, realmente vejo, como você explica. Então, o que é importante em meio a toda essa confusão?”

O importante é livrar sua mente de inveja, ódio e violência; e para isso você não precisa de uma organização, precisa? As chamadas organizações religiosas jamais libertam a mente; só fazem com que ela se conforme a determinada religião ou crença.

“Eu preciso mudar; deve haver amor em mim, tenho de deixar de ser invejoso, e então agirei sempre corretamente. Não precisarei que alguém me diga qual é a ação correta. Vejo, agora, que essa é a única coisa que importa, e não a que organização pertenço.”

Podemos seguir o que, em geral, é considerado uma ação correta, ou receber instruções sobre o que é a ação correta; mas isso não gera amor, gera?

“Não, evidentemente que não; assim estamos apenas seguindo um padrão criado pela mente. Mas uma vez, vejo com muita clareza, senhor, e agora entendo por que você dissolveu a organização da qual era líder. Um indivíduo deve ser uma luz em si mesmo. Seguir a luz do outro nos leva à escuridão.”


(*) Parte de um dos textos de Jiddu Krishnamurti no livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 3. Rio de Janeiro: Nova Era, 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cerimônias e Conversão



Jiddu Krishinamurti *

           “Em um grande cercado, entre muitas árvores, havia uma igreja. As pessoas, negras e brancas estavam entrando. Dentro havia mais luz do que nas igrejas européias, mas as disposições eram as mesmas. A cerimônia estava em andamento e havia beleza. Quando terminou, pouquíssimos negros falaram com os brancos ou os brancos com os negros, e todos nós tomamos nossos diferentes caminhos.

Em um outro continente havia um templo, e eles cantavam um hino em sânscrito; era realizada a Puja, uma cerimônia hindu. A congregação era de outro padrão cultual. A tonalidade das palavras sânscritas é muito e poderosa; tem estranhos peso e profundidade.

Você pode ser convertido de uma crença para outra, de um dogma para outro, mas não pode ser convertido ao entendimento da realidade. Crença não é realidade. Você pode mudar sua mente, sua opinião, mas a verdade ou Deus não é uma convicção: é uma experiência que não está baseada em crenças ou dogmas nem em qualquer experiência anterior. Se você tiver uma experiência nascida da crença, sua experiência será a reação condicionada àquela crença. Se você tiver uma experiências inesperada, espontaneamente, e criar mais experiência sobre a primeira, a experiência será simplesmente a continuação da memória reagindo ao contato com o presente. A memória é sempre morta, revivendo apenas em contato com o presente vivo.

Conversão é a mudança de uma crença ou de um dogma para outro, de uma cerimônia para outra mais gratificante, mas não abre a porta para a realidade. Pelo contrário, a gratificação é um estorvo à realidade. E, ainda assim, é o que as religiões organizadas e os grupos religiosos estão tentando fazer: convertê-lo a um dogma, uma superstição ou uma esperança mais ou menos razoável. Eles lhe oferecem uma cela melhor. Pode ser confortável ou não dependendo de seu temperamento, mas, de qualquer forma, é uma prisão.

Religiosa e politicamente, em níveis diferentes de cultura, essa conversão está acontecendo o tempo todo. As organizações com seus líderes fortalecem-se ao manter os homens nos padrões ideológicos que oferecem, sejam religiosos ou econômicos. Nesse processo se encontra a exploração mútua. A verdade está fora de todos os padrões, medos e esperanças. Se você descobrisse a suprema felicidade da verdade, teria de romper com todas as cerimônias e padrões ideológicos.

A mente encontra segurança e força em padrões religiosos e políticos, e é isso que dá energia às organizações. Existem sempre os conservadores e os novos recrutas. Estes mantêm as organizações funcionando, com seus investimentos e propriedades, e o poder e o prestígio das organizações atraem aqueles que cultuam o sucesso a sabedoria mundanos. Quando a mente descobre que os velhos padrões não são mais satisfatórios e estimulantes, ela se converte as outras crenças e dogmas mais confortadores e fortalecedores. Portanto a mente é o produto do ambiente, recriando e sustentando a si mesma em sensações e identificações; e é por isso que a mente se aferra a códigos de conduta, padrões de pensamento etc. Visto que a mente é o resultado do passado, ela jamais consegue descobrir a verdade ou permitir que a verdade tome forma. Ao prender-se a organizações, ela descarta a busca pela verdade.

Obviamente, os rituais oferecem aos participantes uma atmosfera na qual se sentem bem. Tantos os rituais coletivos quanto os individuais dão certa tranquilidade à mente; eles oferecem um contraste vital com a enfadonha vida cotidiana. Há alguma beleza e metodicidade nas cerimônias, mas elas são, fundamentalmente, estimulantes; e, assim como todos os estimulantes, logo entorpecem a mente e o coração. Os rituais tornam-se vícios; tornam-se uma necessidade, e o indivíduo não consegue passar sem eles. Essa necessidade é considerada uma renovação espiritual, uma concentração de força para enfrentar a vida, uma meditação semanal ou diária e assim por diante; mas, se examinar mais de perto esse processo, verá que os rituais são vãs repetições que oferecem uma fuga maravilhosa e respeitável do autoconhecimento. Sem autoconhecimento, a ação tem muito pouca importância.

A repetição de cânticos, de palavras e frases faz a mente adormecer, embora seja estimulante o bastante durante aquele momento. Nesse estado sonolento, experiências realmente ocorrem, mas são projetadas. Embora gratificantes, essas experiências são ilusórias. A experiência da realidade não acontece por meio de repetições, por meio de práticas. A verdade não é um fim, um resultado, um objetivo, ela não pode ser convidada, pois não é uma coisa da mente.”

* Do livro: Comentários sobre o viver. Breves textos – Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007  

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Intolerância religiosa, por Drauzio Varella


O Dr. Drauzio Varella, no texto intitulado “A Intolerância religiosa”, nos leva a refletir sobre as crenças que substanciam nossa cosmovisão, especialmente, quando confrontadas com as crenças alheias.
O texto foi publicado em http://drauziovarella.com.br/wiki-saude/intolerancia-religiosa/ e por julgá-lo relevante a referida reflexão é que o reproduzo abaixo.

“A Intolerância Religiosa
Drauzio Varella


Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais.

Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos à interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido. Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão, devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada, quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta, ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome d’Ele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV, que tomam dinheiro dos pobres, são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares, porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus seriam considerados mensageiros de satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes nos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.

O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade — quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.”