sábado, 21 de maio de 2011

Viver aqui e agora



Roberto Lira

A manifestação viver no aqui e no agora tem se tornado lugar-comum nos tempos atuais. Mas, nos parece que poucos de fato têm consciência quão transcendente pode ser esta frase. Desse modo, o que podemos entender por viver aqui e agora?
Do ponto de vista sintático, o verbo viver – que exerce a função nuclear do predicado da sentença – é primariamente conceituado de ter vida, estar com vida. Os advérbios aqui e agora completam a sentença e situa o verbo viver nas dimensões de espaço (o aqui) e tempo (o agora).
Do ponto de vista transcendente, e prático, entendemos que viver aqui e agora é uma circunstância que o percebimento de um fato e a ação dele decorrente dispensa o passado, o futuro e o alhures e nos atém exclusivamente na realidade presente. Ou seja, é aquilo que vivenciamos sem a interferência de recordações, ideações e no local onde o fato é circunstanciado.
As recordações nos remetem as reminiscências do já vivido, de algo que já se extinguiu e que não tem mais vida.  As ideações, por seu lado, nos projetam para o futuro que é o vir a ser ou o viver no mundo hipotético do “se”. Por outro lado, trazermos o que está além, distante, para a circunstância que se está vivendo é desfigurar a realidade que de fato se apresenta. Tendo em vista essas premissas, ousamos listar algumas ações que nos parece apropriadas para se viver aqui e agora de forma transcendente:
·         Agirmos livre dos condicionamentos que nos faz subordinados aos determinismos ideológicos (políticos/religiosos), moralistas ou egoístas;
·         Reagirmos focalizando nossa percepção na realidade que se apresenta a cada momento;
·         Assimilarmos a realidade que se apresenta sem pré-julgamentos ou idiossincrasias (a auto-atenção passiva talvez nos conduza a essa realização);
·         Mantermo-nos em permanente processo de aprendizagem nas nossas vivências, mesmo naquelas que nos parecem familiar ou que consideramos já aprendidas.
Viver aqui e agora, NÃO sendo uma realidade estática, requer dinamismo e muita energia para acompanharmos, momento a momento, cada uma das nossas vivências. As ocorrências no nosso viver, do ponto de vista da impermanência, podem ser sintetizadas no aforismo de Heráclito: “Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque o rio nunca é o mesmo e nós nunca somos os mesmos”.
Atenção!  Aqui e agora!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"A outra margem do rio"



Roberto Lira

Nós, seres humanos, em certa etapa da vida ou das vidas (para alguns) enveredamos a procura de um lugar onde a felicidade seja plena e permanente. Esse lugar que para alguns pode ser alcançada ainda em vida, enquanto que para outros só após morte, é mencionado com as mais variadas denominações. Para muitos ele é o céu ou paraíso, para outros o nirvana, ainda, para outros o mundo mental, transcendente ou metafísico, et cetera. Como a palavra não é a coisa, resolvemos chamá-lo de “a outra margem do rio”.
Frente à hipótese de que alguns seres alcançaram a outra margem do rio, não é nosso propósito contestar ou aceitar essa possibilidade. Também não é propósito desta escrevinhação desprezar os ismos ou métodos tradicionais que propõe tal realização. Nosso objetivo é estimular aqueles que estejam interessados em refletir e compartilhar suas compreensões sobre essa questão.
Para atingir a outra margem do rio, a humanidade foi criando ismos, filosofias e métodos que lhe oportunizasse alcançar esse almejado lugar. O anseio interior por este objetivo surge na consciência do ser humano, cedo ou tarde, por vezes de modo inexplicável. As questões que surgem nessa reflexão são: para aqueles cujas tentativas de chegar à outra margem do rio pelos caminhos da tradição foram infrutíferas, haverá algum outro modo diferente dos tradicionais a ser tentado?  Há alguma possibilidade de atingirmos a referida margem sem estarmos vinculado a instituições ou dependente de qualquer “autoridade”?
            O filósofo indiano Jiddu Krishnamurti (JK) palestrou por mais de meio século apresentando uma proposta inusitada para essa questão. Ele conduzia suas palestras convidando os seus ouvintes a encontrarem dentro de si mesmo os meios para esta realização.  Ele insistia na tese de que ao mantermos uma atenção passiva em nossos relacionamentos nosso cérebro/mente poderá sofrer uma transformação radical e assim estabelecer contato com a mente universal. Para ele essa atenção passiva se configura como uma atitude onde devemos excluir, nos nossos relacionamentos, qualquer imagem psicológica que tenhamos construído sobre o outro. Ou seja, devemos nos relacionar sem a lente obtida em experiências passadas, vendo o outro como ele se apresenta no momento presente, no aqui e agora.   Essa conduta proposta por JK está implícita nos estudos cibernéticos de segunda ordem, que trata da relação entre os sistemas observadores e os sistemas observados (ele é reconhecido como um dos pioneiros nessas investigações, embora não empregasse os temos dessa ciência).
            Baseado na proposição de JK, que sinteticamente é sustentada pela possibilidade de que nos mesmos e que devemos encontrar os meios para alcançar a outra margem do rio, introduzimos nesta reflexão a lembrança daquela brincadeira das “Olimpíadas do Faustão”, da rede Globo, chamada “Pedra Maldita” – onde o participante deve atravessar um rio (no caso uma piscina) pisando em várias pedras, tomando cuidado com as falsas, que afundam quando se pisa nelas. Essa brincadeira faz-nos lembrar de nossas frustradas tentativas, sempre pisando em pedras que se não são falsas até agora não nos levaram a alcançar a outra margem do rio.
            Associando a proposta de JK e a imagem das “Pedras Malditas”, surge-nos o analogismo que nossos relacionamentos são as pedras no leito do rio da vida, nas quais temos que nos apoiar para alcançar a outra margem do rio. Assim, devemos caminhar descobrindo como nos apoiar nas “pedras” e esse descobrimento dispensa a base das vivencias psicológicos já experimentadas com o outro. Ou seja, devemos observar cada ação/reação durante a relação como observamos o fluir dos ventos sobre a superfície da água, como observamos o ir e vir das ondas no mar, como observamos os redemoinhos e as corredeiras dos rios, situações onde os conceitos prévios são desnecessários e mais que isso as experiências passadas são um obstáculo para observar o fato real.
            Pensamos que essa nova abordagem talvez possa nos proporcionar insigths sobre esse almejado lugar, o que já seria uma grande realização. E quem sabe esses insigths possam nos levar, DE FATO, a alcançar a outra margem do rio??????
            Atenção!  Aqui e agora!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Os relacionamentos



Roberto Lira

Partindo do pressuposto que o ser humano se constrói, fundamentalmente, a partir dos seus relacionamentos surge à questão norteadora desta escrevinhação: como nos relacionamos?
Antes, de mais nada, devemos esclarecer que a palavra relacionamento para nós é estar em contato, estabelecer relação com, não só fisicamente, presencialmente, mas também mentalmente. Desse modo, há relacionamentos entre pessoas: marido e mulher, pais e filhos, conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos, etc. e etc. Os relacionamentos podem ser superficiais ou profundos. Nestes, que entendemos como genuínos, as pessoas se encontram no mesmo nível, com a mesma intensidade, com a mesma energia, ou seja, há o que podemos chamar de um relacionamento real, verdadeiro. Há, também, os relacionamentos entre pessoas e objetos/animais, mas este tipo de relacionamento não vem ao caso no momento.
Seguindo a questão norteadora, como ocorrem os nossos relacionamentos? Eles se baseiam na memória que temos do outro, no conhecimento que adquirimos em relacionamentos anteriores? Ou seja, nossos relacionamentos se baseiam na imagem que formamos do outro e que os outros formam sobre nós?  Assim sendo, não seriam relacionamentos entre imagens e não entre os verdadeiros indivíduos?
Quando observarmos atentamente nossos relacionamentos, percebemos o surgimento de conflitos desnecessários e concordâncias injustificadas e/ou favorecidas.  Não seriam estes frutos de estarmos a nos relacionar através das imagens construídas no passado, às vezes boas outras vezes más, e não nas vivências reais, no presente, aqui e agora?
Essa nossa propensão de nos relacionarmos através de imagens, ou seja, de preconceitos (conceitos formados previamente) é muito mais intrincada do que parece. Vejamos: além da imagem que formamos do outro pela convivência ou por referências, acrescente-se a isso os rótulos divisionistas que nos damos. Sou brasileiro o outro é suíço, sou cristão o outro é muçulmano, sou pobre o outro é rico, sou erudito o outro é ignorante, sou corintiano o outro é palmeirense, sou petista o outro é tucano, etc. e etc. É natural que quando há divisão entre as pessoas há conflito. É possível nos relacionarmos sem conflito?  
Que tipo de ser humano estamos construindo (construção de nos mesmos) gestadas nos relacionamentos através das imagens? É possível olharmos para o outro como ele se apresenta a cada momento, ou seja, sem a interferência do passado? Desse modo, nossos relacionamentos seriam reais e não imaginários? De modo contrário, nos relacionando através da imaginação (capacidade de evocar imagens anteriormente percebidas), não estaríamos construindo um ser, também, imaginário?
Percebermo-nos, diretamente, nos nossos relacionamentos é o que estamos a refletir, tema que não deixa de ser uma continuidade da reflexão das nossas últimas escrevinhações (autoconhecimento). Nessa continuidade, o presente entendimento  é que para construirmos/reconstruirmos a nos mesmo é necessário, além da argila interior, própria, contarmos com o compartilhamento das reflexões sobre o tema para melhor prepararmos a argamassa que dará sustentabilidade à nossa construção.

sábado, 19 de março de 2011

Persistindo no autoconhecimento


Roberto Lira

As reiteradas manifestações de pensadores e filósofos sobre a importância do conhecimento do si mesmo para a compreensão dos problemas humanos e nossas inquietudes sobre o tema é que nos tem levado a persistir nessas reflexões.
Nesta reflexão, vamos tentar evitar cair na armadilha de ficarmos enredados nas costumeiras polemicas das doutrinas que tratam da constituição do ser humano. Se se trata de um corpo com alma e espírito ou se somos uma essência divina, um eu superior, um atmã ou coisa semelhante, toda essa celeuma são apenas palavras (símbolos) que os especialistas inventam para suas explicações e proselitismos e que geralmente nos leva a ilusões, sem de fato contribuir para uma superação em nosso viver.  O eu real que somos e que estamos tentando conhecer é aquele da existência cotidiana que labuta para sobreviver, que é sensato e insensato, que se irrita e se alegra, que é egoísta e altruísta, que é filho e pai/mãe, que é amigo e inimigo, que é generoso e mesquinho, que é compassivo e desalmado, que deseja ser reconhecido ou passar despercebido, etc. e etc. Enfim, esse é o eu que pensamos ser possível conhecer.  
Compreendemos que qualquer processo de obtenção do conhecimento – ato ou efeito de conhecer por meio da experiência – nos remete a uma rotina que geralmente se inicia ao dirigirmos nossa atenção para algo de interesse. Nossa faculdade de observar dá seguimento à rotina disponibilizando o fruto do seu trabalho – um percebimento – a faculdade de entender que por sua vez avalia e conclui sobre o fato observado/percebido. Essa rotina é finalizada/concretizada com o respectivo registro na memória do fato vivido e, ao longo da vida, esses registros vão formando o conteúdo da consciência individual. Nesse processo de conhecer é evidente a condição de relatividade, visto que as capacidades/faculdades envolvidas na rotina são pessoais. Consequentemente, o conhecimento depositado na consciência é relativo.
Frente ao processo acima descrito, acreditamos que a grande maioria dos seres humanos possui algum conhecimento relativo de si mesmo, apesar de nos parecer que em geral é um conhecimento superficial. Também, nos parece que esse conhecimento por ser superficial não tem conduzido a humanidade a uma superação psicológica ao longo da sua história. Haja vista que a conduta humana observada nos relacionamentos, desde sempre, predomina a insensatez, o egoísmo, o desamor, a ausência de compaixão, etc. A natural contraparte benfazeja dessa conduta, por sua vez, está sempre em inferioridade quando o esperado num processo de superação e que ela seja predominante.
Se a saída para o ser humano superar sua estagnação psicológica é o autoconhecimento e tendo em vista que o autoconhecimento superficial não tem atendido essa demanda, aprofundar esse conhecimento seria a solução? Se sim, como e onde encontrar o fio da meada para alcançar esse autoconhecimento aprofundado?  Novamente, nos deparamos com mais perguntas do que respostas. Em boa hora nos socorre a sabedoria popular e a prática científica ao salientar que o importante é inquirir – nesse dizer, a pergunta vem com a inspiração e a resposta com o trabalho, com a pesquisa e com o interesse. Assim sendo, nos sentimos tranquilos em continuar compartilhando nossos questionamentos.
Esse pretendido autoconhecimento, agora aprofundado, inclui a necessidade de se conhecer além do conteúdo da consciência, conhecer o conteúdo do inconsciente ou não? Se sim, como observar as ações movidas pelo inconsciente? No caso, as ações movidas pelo inconsciente necessitam ser registradas? Ou seja, nesse processo é necessário que as ações movidas pelo inconsciente se tornem conscientes ou não? Se sim, parece que cairemos na mesma forma de conhecer que não tem nos transformado. Se não, a rotina da atenção-observação-percebimento se realiza com uma mente “inocente”, sem um “censor” que julgue, compare, estabeleça normas? Ou seja, essa nova rotina é passiva, momento a momento, sem interferência do passado, do já conhecido?
Cada vez que nos propomos a reflexionar sobre conhecimento do si mesmo, agora tentando aprofundá-lo, percebemos que estamos caminhando num labirinto que vai se ampliando e aumentando sua complexidade. O paradoxo de caminhar nesse labirinto é que, em vez de tornar-se um fator de desestímulo para as reflexões, sentimos o interesse aumentado pelo assunto. Fazer o quê?
 VOLTAREMOS A REFLETIR.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O autoconhecimento


Roberto Lira

Alguns dos textos postados no Ilha de Pala estão relacionadas, de certa forma, com nossa caminhada em busca do autoconhecimento. Conhecer a si mesmo é algo que tem sido recomendado, por pensadores e filósofos, desde épocas imemoriais – uma inscrição no oráculo de Delfos (atribuída aos Sete Sábios Gregos que viveram no VI e V a.C.) advertia: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Os caminhos/métodos para essa descoberta são inumeráveis. Também podem ser diversos os conceitos do que seja o autoconhecimento e a sua finalidade.
Não é demais lembrar que, nesta escrevinhação não vai nenhuma pretensão de aclarar nem aprofundar tecnicamente o assunto. Vamos utilizar a oportunidade apenas para expor algumas reflexões e que estas possam nos instigar na busca desse autoconhecimento.
Certamente as inquietudes que levam os seres humanos a buscar algo são gestadas na insatisfação da sua condição particular. Essa busca, alimentada por expectativas de superação da condição que o ser se encontra, pode apresentar distintos propósitos.  Não vamos situar o autoconhecimento como objeto de investigação epistemológica ou com finalidade de busca de natureza ética ou espiritual. Vamos conduzir esta reflexão de forma simples e extensiva para não delimitar futuras manifestações que venham a ser instigadas.
Assim, que propósito(s) move o ser humano a buscar o autoconhecimento?
Observamos que alguns seres, norteados pela tradição grega, buscam o autoconhecimento como uma forma de conquistar saúde e liberdade; Outros, persuadidos pelo romantismo alemão de Goethe, buscam conhecer a si mesmo para libertar-se das cadeias que o prendem a este mundo físico; Nesse sentido, outros seres orientados pelas filosofias/religiões orientais buscam o autoconhecimento para alcançar o Nirvana (estado permanente e definitivo de beatitude, felicidade e conhecimento, meta suprema do homem religioso) ou moksha (libertação do ciclo de renascimento e da morte); Ainda outros, buscam conhecer a si mesmo para consolidar seu processo de evolução consciente na presente etapa de vida. Et cetera, et cetera, et cetera...
Como já advertido, não vamos nos acercar dessa questão por meio de teorias psicológicas ou qualquer linguagem técnica, particular de determinada ciência, filosofia ou religião. Outrossim, deixaremos em aberto a questão da finalidade, do propósito particular, do motivo para cada ser buscar esse conhecimento e nos concentraremos na questão do “como” realizar a tarefa de conhecer a si mesmo?
Frente a essa questão, surgem muito mais perguntas do que propriamente respostas. Assim, iniciamos questionando:
1.   o autoconhecimento pode/deve ser alcançado através de um método (sistema que regula uma determinada atividade)? No caso, necessitaríamos de um instrutor, um guru, um Mestre para nos garantirem essa realização?
2.   o autoconhecimento significa acumular conhecimento sobre o si mesmo ou significa um movimento sempre novo, momento a momento, portanto sem acumulação?
3.   o autoconhecimento é realizado acompanhado/seguido por/de um julgamento ou é realizado apenas com uma auto-observação passiva?
4.   o autoconhecimento é obtido com o observador sendo diferente da coisa observada (o eu) ou é obtido com o observador  reconhecendo ser a coisa observada?
5.   o autoconhecimento  se limita a perceber o conteúdo da consciência no chamado nível consciente (superficial) ou temos que penetrar no nível mais profundo, chamado nível inconsciente?
Essas e muitas outras questões podem ser reflexionadas para uma possível compreensão de “como” alcançar esse autoconhecimento. Podemos ainda não saber ao certo “como” conhecer esse eu, mas acreditamos que ele só pode ser conhecido momento a momento, no aqui e no agora e sem nenhuma imagem que tenhamos dele a ofuscar nossa observação.
Consentimos com aqueles que manifestam que compreender a si mesmo é de suma importância, visto que não podemos compreender os problemas humanos, os problemas do nosso viver, sem conhecer o sujeito que almeja compreender esses problemas. Sem conhecer o próprio eu.
Atenção para auto-observação (passiva?)!...
Atenção!  Aqui e agora!

quinta-feira, 3 de março de 2011

A verdade

 
Roberto Lira
Fomos instigado por um frequentador do Ilha de Pala a escrever o que pensamos sobre a “verdade”. Em sua manifestação ele nos disse:
 “Por mais que busque a verdade nas minhas leituras, sinto que o conceito de verdade é relativo, é algo muito delicado, a ser conduzido com todo cuidado, tem hora e lugar para ser colocada. O que pensa sobre ela, escreva no blog?”. 
O objetivo deste weblog é compartilhar idéias, reflexões e utopias. Entendemos que esse compartilhamento nos forma/reforma e/ou nos completa. Portanto, não podemos nos furtar ao desafio de compartilhar o que pensamos sobre a “verdade”, mesmo reconhecendo nossas limitações em ampliar o que o amigo palanês sintetizou em sua manifestação.
O vocábulo “verdade” enseja varias interpretações. Assim sendo, é impossível conceituá-lo/significá-la sem determinarmos o contexto em que ela estará inserida. Para isso, considerando como principais contextos para a “verdade”  o religioso, o científico e o das vivências humanas, optamos por escrevinhar o que pensamos sobre ela no contexto das vivências humanas.
Está reflexão nos levou a examinar a “verdade” a luz de duas premissas. Uma delas é a de que o observador é separado da coisa que observa. Essa premissa caracteriza a lógica adotada no Universo cartesiano e neste a “verdade” é considerada absoluta, ou seja, ela se apresenta como acabada e depende apenas de si mesma para existir. Ao se admitir a “verdade” como absoluta ela torna-se inquestionável e, desse modo, exclui todos os que não a admitem ou que a contestam. Na lógica dessa premissa a “verdade” situa-se no externo do ser humano e pode ser capturada por um indivíduo ou grupo de indivíduos. Esses indivíduos ao se apossarem de alguma “verdade” ou “pseudo-verdade” transfiguram-se em autoridades e com aquela(s) passam a criar ideologias e ismos.
Observamos que na cultura vigente ainda é predominante a “verdade” estabelecida com a premissa de que o observador se diferencia da coisa observada. Em nosso entendimento as “verdades” absolutas têm levado nossa civilização ao descalabro que há muito estamos vivendo: guerras, fanatismos, egolatria, desamor, entre tantas outras condutas nocivas. Por outro lado, é possível observar que este paradigma está em mutação. Para o surgimento de uma nova cultura pensamos ser necessário que a “verdade” seja admitida como relativa e observo que, a cada dia surgem mais indivíduos compreendendo que a “verdade” é relativa e não absoluta.
Entendemos que a “verdade” relativa tem sua base na premissa de que o observador é parte da coisa observada, ou seja, o observador e o observado são interativos e inseparáveis, o pensador não é separado do que pensa. É certo que aquilo que observamos além do nosso interno está lá (fora do nosso corpo), mas, também, passa a existir em nossa estrutura interna como fato percebido e incorporado, e não apenas como uma representação. Ao admitirmos a relatividade da “verdade” torna-se legítimo cada indivíduo ter sua “verdade” e isto possibilita ao ser humano o direito de construir sua própria visão de mundo. Do contrário, quando admitimos a “verdade” como absoluta a diversidade/complexidade humana, inerente a nossa condição, passa a ser considerada coisa fora de questão.
Na lógica da “verdade” relativa é subjacente que ela é construída nas interações entre o ser humano e o mundo que o cerca. Ela não é pré-existente. Desse modo, a “verdade” só pode ser percebida momento a momento. Daí, entendermos que para vivenciarmos a “verdade” verdadeira (para nos a relativa) precisamos nos manter no aqui e agora.
É ISSO, no momento, o que pensamos sobre a “verdade”.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Jogo Interior: 2º tempo


Roberto Lira

Na pausa realizada para organizar as idéias, com o intuito de continuarmos os comentários sobre o Jogo Interior, recebemos algumas mensagens, de amigos palaneses, as quais se tornaram oportunos “nutrientes” para a continuidade desta escrevinhação.
Encerramos o primeiro tempo do Jogo Interior reiterando a necessidade de aprendermos a arte de perceber esse Jogo e que isso requer uma mente não dicotômica, transparente e serena! Sem pretendermos indicar um “como” essa aprendizagem ocorre, vamos apenas destacar alguns aspectos a serem refletidos.    
Pensamos que tranquilizar a mente pode ser o começo dessa aprendizagem. Uma mente calma, sem o alvoroço e o rebuliço provocados por memes/pensamentos de aflição, de angústia, de incertezas e de medos, permite nos prepararmos para agir adequadamente nas vivências.  Preocupações com o passado, que já não pode mais ser mudado, ansiedades frente às incertezas do futuro não nos permite viver no aqui e no agora, onde de fato as coisas são vividas. Referente a esse passado e futuro, Gallwey assinala que “os fantasmas do passado e os monstros do futuro desaparecem quando toda a energia consciente é empregada para compreender o presente”.
Outro ponto a ser considerado é o aqui e o agora. Observamos que os memes/pensamentos, que configuram cada ego e presidem o seu viver, estão sempre a afastar o ser humano do aqui e do agora. Entendemos que o “senhor” ego, por viver apegado as coisas e querendo controlar todas as situações, é o responsável por nossa insatisfação, por nossa infelicidade e por tudo o que nos impede de atravessarmos para a “outra margem do rio”. Desse modo, surge a questão:  
Como neutralizar a ação do ego no Jogo Interior?
Para Gallwey, o caminho é simplesmente “deixar acontecer”, que ele traduz como “espontaneidade”. Essa espontaneidade é a essência do eu, que atua sem se importar com os resultados das suas ações. Para ilustrar sua indicação, Gallwey recorre à linguagem do carma ioga, onde isso é chamado de “ação sem ligação com os frutos da ação”. Ele lembra que “ironicamente, quando esse estado é alcançado, os resultados obtidos são os melhores possíveis”.  
Edgar Morin, grande pensador contemporâneo, pai da teoria da complexidade, nos adverte que “ninguém pode escapar de modo total e definitivo da histeria egocêntrica, mas cada um pode estar consciente de que ela existe e, a partir daí, começar a questioná-la. O pensamento complexo facilita a auto-observação, que facilita o autoconhecimento que facilita o pensamento complexo. É por isso que se diz que os pontos de alavancagem do sistema humano podem ser localizados e trabalhados por meio da observação do ego, que é a parte mais frágil do conjunto.” (Paixões do Ego, de Humberto Mariotti, 2000)
Com a mente serenada e vivendo no aqui e no agora, pensamos que a mente do ser humano pode se tornar transparente para si mesma. Transparente no sentido de poder ver as coisas como elas são verdadeiramente. Nessa situação, não estaríamos vivendo o Jogo Interior com a nossa própria essência?  Não estaríamos de fato conhecendo a nos mesmos? Não estaríamos na “outra margem do rio”?
No dizer de Gallwey “Quando se encontra o próprio caminho para a experiência direta, quando se pode realmente encarar a essência da vida, então ter-se á atingido o primeiro – mas não o último – objetivo do Jogo Interior”.
E qual seria esse último objetivo do Jogo Interior? Para Gallwey esse objetivo é descobrir o que ele chama de o EGO 3 (particularmente, entendemos o EGO 3 como o “Eu” com “E” maiúsculo. Diferenciando-o, assim, do “eu” com “e” minúsculo). Penso que há muitos caminhos que nos possibilita depararmo-nos com esse Eu, com essa Imensidão, com essa Coisa que não precisa de um nome para ser descoberta. Caminhos há muitos! Nem imaginamos quantos! Cabe a cada um escolher o seu. E, para esse caminhar, consentimos com Gallwey quando ele afirma que para essa realização “O único instrumento necessário é o corpo humano em si, no qual esteja presente a consciência de si mesmo”, e acrescenta que “a procura é interior”.

Obs.: O 10º capítulo do livro “O Jogo Interior de Tênis”, de Timothy Gallwey, intitulado “O Jogo Interior fora da quadra”, está disponível no link Coletânea.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Jogo Interior

Roberto Lira


            Esta escrevinhação foi instigada pelas concepções de Thimothy Gallwey*, expostas no seu livro ‘O Jogo Interior de Tênis’. Por ser um apaixonado pelo jogo de tênis, este livro foi e continua sendo um dos meus livros de cabeceira. Nos seus dez capítulos, somente um deles é dedicado aos golpes básicos do tênis. A proposta do livro não é dedicada à técnica para jogar tênis, mas sim explorar o ilimitado potencial que existe dentro de cada um de nós, independentemente de sermos jogadores de tênis, de outro esporte, ou não. Pensamos que a leitura desse livro será gratificante para todos aqueles que já perceberam, ou ao lê-lo perceberão, que os nossos relacionamentos são jogos que se desenrolam não só no exterior, mas especialmente no interior de cada ser humano. O Jogo Interior que passamos a comentar pode ocorrer numa quadra de tênis, no trabalho, no lar ou em qualquer outro lugar.
Este primeiro tempo do Jogo Interior poderia, também, ser chamado de Peleia entre o ego e o eu. Antes de iniciarmos nossos comentários são necessários alguns esclarecimentos preliminares: 1º) o observador pioneiro do ‘O Jogo Interior de Tênis’, Thimothy Gallwey, denomina os dois contendores nos jogos que ele narra de EGO 1 e o EGO 2; 2º) nesta escrevinhação, O Jogo Interior, os contendores serão chamados de o ego e o eu; 3º) como a palavra não é coisa (jogadores), vamos tirar os “elmos” desses contendores e mostrar suas verdadeiras faces: de um lado, no externo do ser, encontra-se o “garboso” jogador, o “senhor” ego, que se esmera em apresentar sua face aos outros como real, mas que, na verdade, é por vezes muito diferente da verdadeira; no outro lado, no interno do ser, encontra-se um atleta verdadeiro, o eu, a antítese do contendor exterior e por ser verdadeiro o eu nunca cria uma imagem fictícia de si mesmo, ele é!
            O “senhor” ego preocupa-se demasiadamente com o resultado de suas ações e como elas podem refletir sua auto-imagem em qualquer de suas jogadas. Quando na realidade deveria descartar o auto-julgamento, a preocupação em mostrar qualidades e/ou posses físicas e materiais e se ocupar em aprender a arte da concentração, ou melhor, a arte da percepção. Essa arte é de grande utilidade em todos os aspectos da vida e o seu desenvolvimento permite, de fato, observarmos o Jogo Interior. O desenvolvimento dessa aptidão faz com que um jogador primário do jogo exterior transforme-se em um competente jogador do Jogo Interior. Ou seja, um jogador pouco consciente de si mesmo, passa a alcançar novos e mais elevados níveis de autoconsciência.
            Já deixamos claro que nas vivências humanas podemos observar dois tipos de jogo: um, o jogo exterior; o outro, o Jogo Interior. É necessário percebermos que tanto o Jogo Interior como o jogo exterior desenvolvem-se simultaneamente e que os grandes e verdadeiros jogadores são aqueles que sabem escolher qual desses jogos deve merecer seu empenho prioritariamente, ou até mesmo exclusivamente.
            Nos jogos que vivenciamos, existem muitos obstáculos a serem vencidos, sejam quais forem nossos objetivos de vida. É no mesmo espaço mental que o ego e o eu desenvolvem suas peleias. Algumas vezes um contra o outro, outras vezes cada um por si contra os obstáculos externos e/ou internos. Geralmente, nas peleias para alcançarmos nossos objetivos externos além dos obstáculos impostos pelo ambiente ou por outros, acrescentamos dificuldades desnecessárias, em geral gestadas interiormente, tais como preocupações, incompreensões, apego exagerado aos próprios interesses a despeito dos de outrem, arrependimentos, etc. Essas dificuldades originadas no interior do ser têm como gestor o “senhor” ego.
            Reiteramos a necessidade de aprendermos a arte de perceber o Jogo Interior, acrescentamos ser necessário que o comandante das ações seja o eu e que essas se desenvolvam sem a interferência do “senhor” ego. Isso requer uma mente não dicotômica, transparente e serena!
Por hora, o comentarista faz uma pausa para organizar suas idéias e também para não cansar os expectadores. Voltaremos assim que possível para comentarmos o segundo tempo deste Jogo Interior.

  * Thimothy Gallwey, foi um estudioso de Harward¸ autor do best-seller The Inner Game of Tennis e The Inner Game of Golf, especialista em tênis. O mundo corporativo deve a Gallwey a introdução do conceito tradicional de Coach (profissional capacitado para ensinar, treinar, dar dicas no processo de desenvolvimento do indivíduo – Coaching é o processo em si). O Coaching parte da premissa básica que o próprio indivíduo é capaz de encontrar a melhor resposta aos seus questionamentos, pois ele possui todos os recursos internos necessários para o seu auto-desenvolvimento.